Voo 48 - aterragem forçada

Artigos de Opinião

Nas eleições autárquicas de 2005 tive a honra de integrar uma equipa candidata à Câmara Municipal do Funchal. Como independente, tive a oportunidade de fazer parte da lista encabeçada pelo também independente Carlos Pereira.
O que é que me moveu? A cidade do Funchal que, desde os anos 80 começou a sofrer fortes pressões urbanísticas, não foi capaz de orientar o seu desenvolvimento de uma forma sustentável, equilibrada e qualificada. Mas o anterior mandato, com o mesmo Presidente, Miguel Albuquerque e outro Vereador do Urbanismo, Duarte Gomes, revelou o desnorte completo e um desrespeito por regras, regulamentos e princípios básicos de urbanismo.

Não estando nos meus horizontes uma carreira política, entendi no entanto que era quase uma obrigação, para quem tinha vindo nos últimos anos a escrever e tomar posições críticas sobre a forma como o desenvolvimento e ocupação do território se vinha verificando, aceitar fazer parte dum projecto onde pudéssemos avançar com propostas e mudar o estado das coisas. Fi-lo, sabendo à partida que, numa sociedade muito pouco plural como é a da Madeira, isso poderia ter consequências menos boas. Aliás, ainda com maior consciência do que quando estive à frente da representação da Ordem dos Arquitectos na Região. Soube, em ambos os casos, que sendo dos poucos a fazê-lo seria um alvo fácil.

No exército chama-se de vanguarda ao agrupamento que numa batalha vai à frente para desbravar caminho. Dos que fazem parte das vanguardas poucos sobram. São os exércitos que vêm a seguir que ficam com os louros. Ainda assim nunca me importei de ir “à cabeça do touro”, ainda por cima tendo em conta que o fazia pela minha cidade, o Funchal. Contudo, mesmo o mais destemido forcado espera que, sem olhar para trás, lá estejam os “ajudas” e o rabejador.
Pois a realidade é diferente. Cada vez que olho para trás nem “exércitos”, nem “ajudas”. O que se vê são aficionados de bancada a dar palpites e, em vez de exércitos, só se vislumbram pequenas guerrilhas nos cafés, protagonizadas por generais reformados, aspirantes a qualquer coisa e mercenários. Assim começo a ter muitas dúvidas se vale a pena.
É certo que corro risco de ter estado a defender ideias que muito poucos ou ninguém mais partilha. Sei contudo que o modelo de desenvolvimento do território que defendo é oposto ao que Miguel Albuquerque defende e pratica há mais de 12 anos.

Resta-me a esperança de durante estes dois anos em que fiz parte da Vereação da CMF possa, em alguns casos ter servido de consciência crítica à equipa que governa a cidade e que possa ter influenciado alguma decisão. Mas a realidade é que um vereador da oposição numa Câmara com maioria absoluta, pouco mais pode fazer com a sua presença, uma vez por semana, na Reunião de Câmara, por onde passa uma ínfima parte dos projectos e poucos assuntos são debatidos.

Passados dois anos de ter iniciado esta experiência autárquica o Tribunal decretou a perda do meu mandato por ter entregue atrasada uma declaração, a que só os detentores de cargos políticos são obrigados, declarando o seu património e rendimentos. Assisti à última reunião de Câmara no princípio deste ano. Saí com a noção de que, apesar do esforço notório do actual Vereador do Urbanismo, João Rodrigues, continua-se a remendar erros do passado e sem conseguir ainda romper a lógica do interesse público a reboque do interesse privado. Saí com pouca esperança que o poder instalado possa mudar e evoluir noutro sentido, onde a prática fique mais perto do que é apregoado. Vem aí a revisão do PDM. Vamos ver.

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