Pôr a mesa
UncategorizedPrimeiro colocam-se os pratos rasos. Oitenta centímetros entre o centro de cada um, garantirão uma distancia suficiente para alimentar uma boa conversa com os convivas do lado, sem que os cotovelos de cada um se metam no assunto. O prato que recebe a iguaria de entrada ao repasto, será de menor dimensão, poderá vir composto da cozinha e ser colocado sobre o maior. Os talheres colocam-se de seguida: devem seguir a ordem dos pratos para que estão destinados, de fora para dentro. Os da sobremesa ficarão em lugar distinto, de preferência perpendiculares aos primeiros, para lá do prato, a eixo com o seu centro. Dois copos, pelo menos, deverão compor o lugar: um para a água, outro para o vinho. O guardanapo será arrumado do lado esquerdo, junto aos talheres, de forma a não confundir os convivas quanto à sua propriedade.
Todos os utensílios essenciais a cada conviva, estão lá. E os elementos comuns também: sobre a mesa, redonda e de 8 lugares preferencialmente, pousa uma coberta de fina lã que recebe uma preciosa toalha de linho. Uma amortece o toque, a outra iluminará os sabores que se irão degustar. O cenário da refeição está montado. Os pratos, talheres e copos foram colocados numa harmonia que, sublinhada pelas sombras projectadas de duas velas, revela uma mesa suficientemente acolhedora para receber um repasto tão bom como a conversa que se há-de saborear ao longo e depois da refeição.
A colocação de cada elemento sobre a mesa não é aleatória. A composição obedece a códigos pré-estabelecidos e só não é necessária a ajuda de um desenho que oriente a colocação de cada utensílio, porque já está tradicionalmente inserido na nossa memória. Apesar disso, existe, em abstracto, um desenho que planifica a organização da mesa. E ainda bem. Senão imaginemos que cada conviva, antes de se sentar, passava pela cozinha, trazia os pratos e restantes elementos e os dispunha conforme melhor lhe aprouvesse. Ou que cada um tivesse diferentes modelos de como arranjar uma mesa. Que caos não estaria guardado para pôr, logo à partida, cada um dos participantes maldisposto.
Isto é um exemplo de uma simples planificação que usamos inconscientemente no dia-a-dia.
Como seria interessante se no nosso território, “antes de pôr a mesa”, tivesse havido um desenho que orientasse a colocação de cada objecto, numa relação de clara harmonia entre cada um.
É claro que poderemos sempre encomendar uma piza e come-la aos bocados da caixa de cartão. Mas isso é a forma menos civilizada de nos alimentarmos, pouco mais evoluída do primeiro Homem que experimentou cozinhar os alimentos, muito aquém de uma experiência culinária e a séculos dos prazeres da gastronomia. Mas disto falarei depois. Até lá, bom apetite.
El Tartère, 26 de Março de 2008