Uma verdade inconveniente
Artigos de OpiniãoUma verdade inconveniente. O que faz um homem com mais de cinquenta anos perante uma vasta plateia, explicando as suas preocupações com o aquecimento global do planeta e as consequências catastróficas que tal poderá ter daqui a cinquenta anos? Nessa altura, de catástrofe prevista segundo os estudos cientÃficos apresentados, esse mesmo homem já não estará concerteza vivo. O que leva então Al Gore a assumir uma posição tão controversa e polémica perante uma sociedade que vive maioritariamente alienada dos problemas que vão para além do seu dia-a-dia? A sua preocupação tem somente a ver com as condições em que as futuras gerações irão receber o nosso planeta.
Nos últimos trinta anos a Madeira tentou superar anos de atraso relativamente ao estado de desenvolvimento da maior parte das regiões do mundo civilizado. Inicialmente as apostas foram muito claras e compreensÃveis. As infraestruturas viárias encurtaram distâncias numa ilha de orografia agreste. A ampliação do aeroporto beneficiou a principal ligação ao exterior. A renovação do parque escolar deu suporte e condições ao sistema educativo. A construção de centros de saúde garantiu o acesso mais cómodo à população fora do Funchal criando também condições de apoio social aos cidadãos mais desfavorecidos.
Enquanto a criação destas infraestruturas foi sendo feita, a iniciativa privada encarregou-se de suprir as carências do parque habitacional. Ao mesmo tempo, novas instalações hoteleiras aumentavam a capacidade de acolhimento de turistas e criavam mais emprego. Observou-se assim um desenvolvimento rápido das condições económicas e de qualidade de vida da maior parte da população. Isto foi possÃvel não só pela habilidade dos governantes mas também pelos fortes apoios da Comunidade Europeia e do Estado, essenciais para termos chegado aqui. A economia da Madeira, baseou-se assim em dois factores produtivos: o Turismo e a Construção.
Infelizmente estes dois pilares da economia madeirense tem revelado alguma incompatibilidade entre si. O turista escolhe a Madeira por quatro razões essenciais: o clima, a proximidade da Europa, a segurança e a paisagem. Se o primeiro factor ainda é verdadeiro, o segundo é condicionado por uma politica de transportes inadequada, o terceiro começa a oferecer menos garantias enquanto que o quarto corre sérios riscos de desaparecer como factor atractivo.
Era possÃvel que tal não tivesse acontecido? Era. Mas para isso teria sido necessário não só uma visão esclarecida sobre o ordenamento do território como uma maior competência e responsabilidade na concretização de um modelo de desenvolvimento. Enquanto se projectaram as infraestruturas viárias dever-se-iam ter planeado e planificado os lugares que as iam receber, introduzindo regras urbanÃsticas em harmonia com a paisagem. Em vez de permitir um desenvolvimento urbano disperso traduzido por enormes despesas em infra-estruturas secundárias que oneram de sobremaneira o erário público, tanto na sua construção como na sua manutenção, devia-se ter escolhido um desenvolvimento baseado em núcleos urbanos que concentrassem a maior parte da construção, libertando mais espaços verdes e mantendo a paisagem rural sem a descaracterizar.
Ainda há remédio? Penso que sim. Mas para isso é urgente deixar para trás uma politica preguiçosa e populista. É necessário estabelecer horizontes que vão para além dos quatro anos dos ciclos eleitorais e pensar nas gerações que aqui irão viver daqui a cinquenta ou mais anos porque hoje estamos a criar o património e as condições do território para o futuro e não apenas para garantir a nossa subsistência.
A isto chama-se desenvolvimento sustentável.
Funchal, 26 de Março de 2007
