Uma estória de encantar

Artigos de Opinião

“Era uma vez um lugar longínquo, onde todas as pessoas eram indispensáveis, os Invernos longos e nos Verões deslumbrantes, as noites brancas. Nessa terra, na sua bela capital, banhada por canais de água tão pura que se podia beber e rodeada de frondosos bosques, existia uma velha e belíssima Biblioteca situada num pequeno Parque, no centro da cidade.

Mas como nesse lugar, as pessoas preferiam aprender coisas novas a ver na televisão as estafadas intrigas novelísticas, dentro e fora das novelas, chegou certo dia em que a “Casa dos Livros” ficou pequena. Então, os habitantes dessa doce cidade começaram a pensar como poderiam ajudar a “Velha Senhora” a continuar viva e cheia de pessoas, sem perder o seu Esplendor. Acontece que nos longos Invernos, os naturais dessas terras aprenderam as virtudes das decisões ponderadas e amadurecidas.

Assim, tiveram todo o tempo necessário para pensar como seria a melhor maneira de ajudar a crescer, essa bela e velha “Casa dos Livros”. Primeiro fizeram um Programa, muito claro, funcional q.b., flexível à evolução, pragmático e o mais económico possível, ou seja, despretensioso e com a escala adequada ao Tempo e ao Espaço. Depois, lançaram um Concurso aberto a todos, com a intenção do cenário ser o mais livre, transparente e democrático que se pudesse imaginar.
De seguida, escolheram entre todas as ideias possíveis, após uma grande exposição pública, uma mão cheia de fortes propostas para, com tempo e meios, numa segunda fase, dando meios igualitários aos escolhidos, elegerem aquela que seria “a proposta ideal” para ampliar a sua querida “Casa dos Livros”. Para consumar todo o processo, se o autor ou autores da proposta vencedora, não tivessem por acaso as condições práticas para pôr de pé as suas ideias, então a “cidade” criaria as condições para isso se tornar possível, condições logísticas, financeiras e temporais.

Esta é uma estória difícil de acreditar em Tempos Difíceis como os que vivemos no nosso país, num país em que à partida se pede uma extensa lista de requisitos para fazer uma qualquer obra e em que nos concursos públicos é pedido que se tenha um elevadíssimo volume de facturação, um currículo notabilíssimo, uma vastíssima equipa, um sofisticado leque de equipamentos, uma contabilidade intocável e depois, se resistir às ratoeiras de secretaria, a imperfeições do processo e ao enredo da burocracia, então, por fim, poder-se-á entregar uma proposta, a qual, eventualmente, poderá vir a ser julgada. (…)

Mas acontece, para nossa vergonha, que a estória de encantar da Biblioteca do país das Noites Brancas, não é uma história de inventar, mas aconteceu o ano passado. Em 24 de Novembro de 2006, algures em Estocolmo abriu uma exposição, com 1100 (!) propostas da primeira fase do concurso de ampliação da Biblioteca de Estocolmo, uma das mais celebradas obras de arquitectura do século XX, do arquitecto Erik Gunnar Asplund. (…)”

Este extracto, amputado da sua versão original (*), foi apresentado no último Congresso dos Arquitectos há cerca de um ano, pelo arquitecto Alexandre Marques Pereira. Pretendeu ele, com esta “estória de encantar”, falar-nos da decadência em que entrou o sistema de concursos públicos de arquitectura a nível nacional. Pretendo eu, sensibilizar o poder Regional e Local para fazer a diferença. A remodelação do Estádio dos Barreiros está para breve. Que tal seguir o exemplo dos habitantes da cidade da “Casa dos Livros” ?

Funchal, 14 de Dezembro de 2007
Luís Vilhena

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