Sobre tudo e sobre nada

Artigos de Opinião

Faz mais de quatro anos que escrevo estes artigos de opinião aqui no Diário de Noticias. Na altura, entre amigos e colegas, falava-se muito sobre o que estava a acontecer na transformação do território da Madeira, mas as conversas não passavam do estirador ou da mesa do café. Outros faziam-no na comunicação social mas raramente eram arquitectos. Aceitei então o desafio de passar algumas ideias e lançar certos temas de que então pouco se falava. Aqui abordei assuntos que tinham a ver essencialmente com a arquitectura, a cidade e o território. Sei que contribui um pouco para que se passasse a ligar mais ao papel da arquitectura e à necessidade de planear bem o território.

Mas ainda há muitos assuntos para abordar e questões para debater, principalmente nesta altura em que se preparam uma série de documentos que irão condicionar novas transformações no território. È contudo curioso que, olhando estes quatro anos, não tenha visto, salvo raríssimas excepções, aparecerem outros arquitectos contribuindo para este exercício de cidadania, nem mesmo agora que existe outro protagonista que representa os arquitectos na Região e dele não sabemos qualquer linha ou pensamento.

Hoje procurei outros temas para divagar.
Pensei em falar sobre economia, sobre o peso insignificante que um projecto de arquitectura tem no computo geral de um investimento imobiliário (1,5% na melhor das hipóteses) e a irrelevância que lhe é dada pela maioria dos promotores o que leva a honorários cada vez mais incompatíveis com um bom serviço.

Poderia também escrever sobre a falta de qualidade com que, na generalidade, se construiu nos últimos 15 anos, o que associado à falta de qualidade urbana, resultou num parque habitacional desqualificado, difícil de revender, principalmente agora que existe procura por um mercado estrangeiro mais exigente.

Apetecia-me também falar sobre o artigo que saiu na última “Visão” a propósito dos 14 finalistas de economia e gestão deste ano com maior hipótese de sucesso no mundo profissional, encontrando-se na lista apenas 4 rapazes, o que sem dúvida pode revelar alguma coisa do futuro da economia e do mundo empresarial.

Da candidatura da arquitecta Helena Roseta à Câmara de Lisboa e do sucesso de um movimento de cidadãos, também haveria muito a dizer, da falência dos partidos políticos sobretudo no que respeita ás eleições autárquicas e da importância que uma gestão independente das guerras partidárias teria de bom para a cidade.

Do péssimo negócio que o Estado fez com a colecção Berardo bastariam poucas linhas e não dava para preencher esta folha só para dizer que tendo em consideração o estado do nosso Património, os orçamentos miseráveis destinados aos museus e estado da Cultura em Portugal é no mínimo escandaloso o que se fez.

A Trienal de Arquitectura, patente em Lisboa, serviria para demonstrar o que poderia já ter sido feito na Madeira com exposições de Arquitectura sobre os concursos e obra promovida pelas Sociedades de Desenvolvimento e Governo Regional.

Gostaria de ainda um dia falar sobre a política “Simplex” aplicado aos procedimentos burocráticos do licenciamento municipal, do receio que tenho dessa simplicidade num território carente do mínimo de planeamento urbanístico.

Seria também importante discorrer um pouco sobre ética, moral e disciplina já que estas parecem estar cada vez mais num plano secundário na dimensão profissional dos arquitectos, o que só enfraquece a nossa classe.

Apetecia-me também falar da comunicação social, do défice de debates plurais na RTPm, da falta de um certo jornalismo de investigação e de outras coisas que poderiam contribuir para o amadurecimento da democracia na Madeira, mas aconselharam-me que não é prudente beliscar o quarto poder.

Enfim, tantas questões e tanta preguiça. Pode ser que após uns dias na câmara de descompressão do Porto Santo haja tempo e vontade.

Funchal, 24 de Julho de 2007

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