Quatro voos e uma pirueta

Artigos de Opinião

Voo 1. No dia em que escrevo este texto celebra-se o 25 de Abril, passados 33 anos da revolução que pôs fim a uma ditadura de quarenta anos. Neste mesmo ano, um “concurso” de televisão meio apatetado pôs em primeiro lugar o ditador que conduziu o país durante essas décadas, parecendo assim continuar a exercer o fascínio sobre alguns portugueses. Alguns gostariam de fundar um museu sobre Salazar. Tal não me causaria algum escândalo e seria até educativo, desde que, para além do mais, também patenteassem a sua visão conservadora que nos distanciou inexoravelmente do progresso europeu; o seu paternalismo que dispensou muitos portugueses de uma alfabetização e formação cultural imprescindíveis num mundo moderno; a sua política económica que deixou a nação num pântano sem infraestruturas necessárias ao desenvolvimento de um país europeu; a formação de uma sociedade governada por um sistema autoritário que, através da censura e perseguição política atrofiou gerações; a polícia política que prendeu e matou cidadãos que manifestassem divergência das suas ideias. Alguns, hoje em dia, parecem sentir a falta de um sistema autoritário e paternalista sob o qual não tenham muito que pensar. Eu continuo a acreditar na Democracia. Acredito na alternância do poder político e creio no confronto das ideias para encontrar as boas soluções. Eu escolho a Liberdade.

Voo 2. No próximo dia 6 há eleições. Tendo em conta que os cidadãos continuam distantes da discussão politica e do debate de ideias, a maioria dos partidos políticos opta por mensagens vagas que pouco ou nada dizem, frases curtas de fácil apreensão e baseiam a sua propaganda em standards de comunicação publicitária que pouco tem mudado desde há trinta anos. Á custa do estado das coisas vemos as nossas cidades e paisagens serem invadidas por um sem número de cartazes que desfiguram os lugares. Numa terra que centra a sua economia no Turismo, não deixa de ser questionável se será uma boa opção permitir-se que esta poluição visual evada periodicamente as nossas cidades. Os partidos políticos têm de mudar, a Madeira poderia fazer a diferença, todos teríamos a ganhar.

Voo 3. Dez anos depois de ser aprovado o PDM do Funchal, após se ter feito tábua rasa do Plano em inúmeras intervenções, não se tendo desenvolvido os planos de grau inferior, tem a Câmara, agora, durante a primeira parte do presente mandato, desenvolvido um conjunto de planos de urbanização e de pormenor que, apesar da boa vontade de alguns peca por duas razões: em primeiro lugar por serem tardios. A equipa municipal de planeamento está a fazer num ano aquilo que deveria ter sido feito em dez, com todas as consequências que isso acarreta. O segundo pecado original decorre do critério prioritário das áreas de intervenção. O Plano de pormenor da Ribeira de S. Martinho serve apenas para dar enquadramento legal ao novo complexo desportivo do Marítimo, o Plano de Pormenor simplificado da 5 de Outubro para regular a construção de um conjunto habitacional que já está a ser construído (!), o Plano de Urbanização do Infante, que inicialmente se denominava Plano de Pormenor do Savoy, serve apenas para legitimar a pretensão de renovação e ampliação de um hotel. Enfim, se isto é planear a cidade, vou ali e já venho.

Voo 4. No Funchal, esquina da Rua da Carreira com a Rua da Alegria, foi embargada uma obra já praticamente concluída. Durante um ano, em que se verificou a obra estar a ser construída em desacordo com o projecto licenciado e quando se poderia ter corrigido a ilegalidade, nada se fez enquanto decorria uma acção em tribunal. O edifício parece estar pronto a ser inaugurado. Ficaremos cá para ver se compensa não cumprir a lei.
Pirueta. Começa a ser necessário algum malabarismo para andar de automóvel no Funchal. Soluções. Zero. Zás tráz páz.

Funchal, 25 de Abril de 2007

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