Mecenas

Artigos de Opinião

No livro de Mario Lacruz sobre a vida romanceada de Gaudí há uma passagem em que o já consagrado arquitecto catalão sai da casa de Güell acompanhado pelo seu mais próximo colaborador, Berenguere. Enquanto Eusebi Güell, amigo, cliente, admirador e mecenas de Gaudí, ainda os seguia com o olhar à distância, o arquitecto dirige-se a Berenguere e pergunta-lhe: “Sabes o que é um verdadeiro senhor? Sem ser uma pergunta para obter resposta Gaudí continuou: Um verdadeiro senhor é uma pessoa de excelente sensibilidade, de excelente educação e de excelente posição. Como em tudo o que é excelente, não sente inveja e agrada-lhe que prosperem todos quantos o rodeiam. Isto não te lembra os Medici ou os Dória? Pois don Eusebi Güell é assim.”

Entendendo a arquitectura como uma arte, ou pelo menos enquanto ela se revela como tal, sempre precisou de mecenas, ou homens com uma visão progressista e futurista para apostar em obras que dessem um passo em frente no caminho da modernidade e marcassem o seu tempo distinguindo-o de épocas passadas. Hoje em dia será difícil de encontrar mecenas como Güell ou os Medici. As fortunas pertencem a sociedades anónimas geridas por conselhos de administração ou, muitas vezes, detidas por pessoas que entendem a arte como mais como um factor multiplicador das suas contas bancárias sem a amarem realmente. E também há o Estado.

Mas deverá o Estado fazer o papel de mecenas? Sendo o mecenato o financiamento de artistas, cientistas ou outros que criam obra sem se exigir um retorno imediato, poderia pôr-se em causa se um Estado pouco abonado teria legitimidade para gastar dinheiros públicos sem consequências visíveis e imediatas. Porém, ao Estado estão conferidas responsabilidades de utilidade pública e o desenvolvimento cultural é assumidamente um interesse público. As Artes, a Arquitectura ou até mesmo a preservação do meio ambiente, da Paisagem, têm um valor cultural imprescindível à formação da identidade de uma cidade ou região. Por isso faz todo o sentido que haja uma politica cultural que inclua o mecenato quer do próprio Estado quer no apoio e incentivo á iniciativa privada.

As Sociedade de Desenvolvimento da Madeira têm sido em parte um mecenas da arquitectura na Madeira e Porto Santo. Apostaram, quase sempre numa nova geração de arquitectos, com obra contemporânea e em programas públicos aparentemente interessantes. Sem elas teria sido difícil de aparecerem obras como a Casa das Artes Casa das Mudas, o Centro Cívico do Estreito da Calheta, ou a intervenção na praça da Autonomia em Câmara de Lobos, entre outras.

Mas também entre outras estão algumas cujo resultado não dignificam em nada o seu promotor. É assim. O resultado da relação entre os mecenas e os arquitectos é sempre interessante mas nem sempre com resultados iguais. Há as obras que foram um sucesso e que levaram à glória o arquitecto e consequentemente prestigiaram o mecenas, há as que, completamente incompreendidas na sua época, foram redescobertas passado muito tempo com grande sucesso e até há aquelas em que o arquitecto ia levando à ruína o seu mecenas como é o caso do casal Milá quando encomendou a sua casa a Gaudí no Paseo de Gracia em Barcelona, hoje património da humanidade consagrado pela UNESCO.

No caso de Roser Segimon e Pere Milà e tratando-se do seu próprio dinheiro, bem podiam ter chegado à ruína que pouco teriam afectado algum catalão. No caso das sociedades de desenvolvimento, bom, cá estaremos para ver, já que se trata de dinheiro público dos madeirenses.

Funchal, 26 de Maio de 2007
Luís Vilhena

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