Abram alas ao Nody
Artigos de OpiniãoPelos anos 50, os computadores a válvulas, como o IBM 650, pesavam cercam de 900Kg. Poucos anos mais tarde aparece o primeiro sistema de armazenamento magnético constituÃdo por 50 discos de metal com 60 cm de diâmetro, que armazenava apenas uns 5 mb de informação. Nessa altura era difÃcil de imaginar que, passados 50 anos, computadores pessoais com uma capacidade de processamento incomparável e de armazenamento de informação 100.000 vezes superior, coubessem na palma da mão e ainda servissem para telefonar, fotografar e ouvir música podendo, ao mesmo tempo, aceder a um mundo de informação disponÃvel, de fácil acesso, a que hoje se chama Internet.
É certo que a tecnologia nos guardará no futuro outras surpresas que irão influenciar a vida quotidiana. Muito provavelmente, daqui a poucos anos, as actuais discussões sobre aeroportos serão obsoletas porque os aviões não precisarão de tanto espaço para aterrar; que os transportes terrestres assentarão em conceitos diferentes de mobilidade; que o próprio conceito de habitar se vá alterando, dando lugar a construções mais efémeras, mais económicas, com menores conotações com o sentido de propriedade; etc. etc.
A velocidade a que as coisas têm mudado nas últimas décadas augura uma aceleração rápida na transformação do mundo que hoje vivemos, do território em geral e das cidade em particular. As sociedades que evoluem mais rapidamente são aquelas que protagonizam os momentos de inovação e que, de alguma forma, conseguem “adivinhar†o futuro. Mas para “adivinhar†o futuro é preciso projectá-lo e construir modelos utópicos que sirvam de rumo para um horizonte de várias décadas.
O Funchal está na altura de projectar o seu futuro. Celebra 500 anos de História e tem, ao mesmo tempo, de produzir um documento que irá orientar uma boa parte do desenvolvimento desta cidade. O que está então o Funchal a fazer para “adivinhar†o Futuro? Infelizmente, nada! Está apenas a preparar-se para remendar uma manta de retalhos que tem sido o seu documento orientador dos últimos 10 anos, corrigir situações anómalas criadas por não se ter seguido qualquer plano e preguiçosamente ir permitindo intervenções desqualificadas e a expansão de zonas caóticas.
Neste momento deverÃamos estar a discutir o que queremos da cidade no ano 2.508 ou, já que isso é demasiado utópico, o que queremos que a cidade seja daqui a 50 anos. Não se está a falar de desenhar a cidade mas sim de lhe encontrar uma ideia que sirva de base a um projecto colectivo para construir uma cidade de futuro. Assim, o Funchal tem de saber se quer manter o seu carácter, ou o que resta dele, recuperando a paisagem das quintas do seu anfiteatro e mantendo a morfologia e escala do seu centro histórico. Ou se não quer; Se quer projectar novas zonas de expansão concentrando a construção e infraestruturas, qualificando os espaços púbicos à partida. Ou se quer ir a reboque da iniciativa privada, dispersa e pouco produtiva em termos de espaços públicos qualificados; Se quer qualificar a sua orla costeira mantendo o seu carácter. Ou se não, se afinal o melhor é comprar praias artificiais que nada têm a ver com a ilha.
Tudo isto e muito mais deveria estar a ser debatido, mas em vez disso tenta-se passar o mais discreto possÃvel por este momento que podia ser de inovação e projecto de futuro. Ao invés, os 500 anos do Funchal têm vindo a ser efusivamente celebrados desde 2004. Pena é que os eventos não tenham uma linha condutora e que só esporadicamente tiveram a ver com o tema; eventos que até incluÃram uma visita do Noddy, “oficialmente†recebido na Câmara. Mas cada qual tem aquilo que merece. Abram alas ao Noddy!!!
*Noddy, personagem do imaginário infantil que, em Outubro de 2006, encarnada por um gigantone vestido com as roupas do boneco, visitou a Câmara do Funchal, incluÃdo nas comemorações dos 500 anos do Funchal.
26 de Junho de 2007
