A Tourada

Artigos de Opinião

Hoje é dia de tourada. O touro, essa besta com mais de seiscentos quilos, entrou a matar. À primeira investida, preso na cornadura, levou o capote de um elemento da quadrilha de um lado ao outro da arena. A seguir derrubou o picador e por pouco não pegava um dos bandarilheiros. A faena afigura-se difícil como já outras houve e toda a quadrilha é assombrada pelo medo que faz parir os heróis. Todos mais ou menos acagaçados. Todos, menos aquele aficionado que, sentado no melhor sitio junto à barreira, fuma um Montecristo «A» com especial descontracção. Só tira o havano para gritar-nos conselhos paternais, recomendar-nos soluções suicidas ou, a maior parte das vezes, lançar-nos tremendos impropérios.
O seu toureio é virtual. Os passos de muleta aprendeu-os de ver algumas touradas, da leitura de croniquetas de fim de semana e, touros, só vê-los ao longe do seu confortável lugar na bancada. Ele não está diante da fera, esse animal astuto e complexo, muito menos linear que parece à primeira vista.

O principio deste texto é quase todo, com ligeiras alterações, de Òscar Tusquets Blanca. Esta metáfora conta-a num dos capítulos do seu livro “Todo es comparable” a propósito dos críticos de arquitectura que da sua confortável escrivaninha debitam as mais variadas opiniões, como se estivessem a falar de uma pintura ou outra obra de arte, sem nunca terem estado no terreno a debater-se com o complexo sistema burocrático das autarquias, num território sem planeamento urbanístico, onde as regras são aplicadas aleatória e discriminadamente, sob forte pressão dos clientes que ambicionam alcançar as mesmas benesses que o seu vizinho, etc, etc, etc.

Eu, peguei nesse texto para falar de Mamarrachos. Ou antes, para falar desse “concurso” promovido pelo Diário de Notícias para a eleição dos melhores mamarrachos da Madeira. É certo que esta brincadeirinha vale o que valem os julgamentos populares, ou seja muito pouco, embora, às vezes, com danos colaterais irreparáveis. Se a iniciativa servisse para desencadear uma discussão sobre a forma como se tem desenvolvido o território, ainda valia a pena. Mas a verdade é que nessa lista preconcebida misturam-se alhos com bugalhos, elefantes brancos com elefantes numa casa de louça, antenas com balões e barcos com cabras. Ou seja, dispara-se para todo o lado sem ir ao fundo da questão e que é, na minha opinião, a forma como se tem gerido o território, ou antes, como não se tem gerido.

A apreciação de objectos arquitectónicos de forma isolada interessa-me cada vez menos. Sabemos que um edifício, em média, tem um prazo de vida de cerca de 50 anos. No entanto, a forma como se organiza o território tem consequências por várias centenas de anos e condiciona o futuro e sucesso de uma cidade muito mais que a obra isolada. É claro que é muito mais fácil dizer “ aquele prédio é muito bonito”, “aquele é muito feio”. Mas o que é “feio” hoje pode ser “bonito” amanhã e vice-versa, porque gostos não se discutem, não é? Por isso mesmo, o que interessa acautelar é a forma como a cidade se organiza. Mas sobre isso parece ninguém falar, quando afinal o que dá qualidade de vida aos cidadãos é o espaço urbano que lá há-de continuar por umas centenas de anos.

A Cidade do Funchal comemora muito em breve os seus 500 anos e também está a estudar o Plano Director que condicionará o seu desenvolvimento urbanístico nos próximos 10 anos. Não seria muito mais interessante debater a cidade do que estar a chamar nomes e dar alcunhas a uns quantos edifícios? Mas enfim, como estamos em época festiva, sendo Carnaval, ninguém leva a mal. Olé!

Funchal, 20 de Fevereiro de 2007

Nota: O “concurso” Mamarracho é uma iniciativa que decorre entre Janeiro e Fevereiro de 2007 promovida diariamente no DN da Madeira para escolher o “melhor mamarracho” da Madeira.
A lista pré-determinada pelo jornal, das obras em que se pode votar, é a seguinte:
-Edifício Infante
-Marina do Lugar de Baixo
-Parques empresariais
-Mercado do Porto Santo
-Auto-silo Almirante Reis
-Centro Cívico da Ponta do Pargo
-Balão no Funchal
-Funchal Centrum
-Tecnolpólo
-Quebra-mares
-Iate dos Beatles
-Edifício da Varzea, Amparo
-Antenas da Marconi
-Igreja dos Lameiros

1 Comentário »

  1. Caro Luis,

    Quanto ao concurso do DN, vale o que vale - pessoalmente oscilo entre a classificação de imbecilidade e a de infantilidade.

    Mas tenho lido muitas vezes que “um edifício tem uma vida aproximada de 50 anos”, o que não é bem verdade, infelizmente nuns casos e felizmente noutros. Quanto mais atenção presto ao urbanismo mais me parece que o tempo de duração das “casitas” é bem maior.

    Os gostos não se discutem, mas educam-se, o que é particularmente importante no caso da arquitectura, em que a falta de educação não se revela na forma de um impropério daqueles que se esquecem facilmente ou se resolvem à antiga.

    Normalmente, no urbanismo em geral e na arquitectura em particular a consequência imediata é um absesso mal parido, de tamanho razoável e longevidade prolongada.

    Ainda pior, porque normalmente a falta de sentido estético está aliada à irresponsabilidade para com as gerações futuras, que nascerão e viverão com os absessos como exemplo - e pior que tudo, condimentada com a mais pura e descarada corrupção.

    Acharia muitissimo bem que se promovesse uma discussão ampla sobre o urbanismo que queremos para os próxios 100 anos, especialmente se essa discussão passasse também por equacionar a hipótese de pura e simplesmente destruir alguns dos abortos que foram feitos. Agora todos sabemos que uma tal discussão só faria sentido se fosse abraçada pelos actuais governantes numa lógica de abertura real à sociedade.

    O mais provável que aconteça, se alguma coisa acontecer, é a questão ser absolutamente politizada desde o inicio com o resultado que se conhece - essa é a primeira batalha a travar, pois é do seu resultado que se vai dicidir se as ideias têm ou não espaço para se tornarem, um dia, realidade.

    E já agora uma questão para pensares: tens a certeza de que os arquitectos são a melhor escolha para pivot desta fundamental discussão?
    Eu não.

    É evidente que fazes muito bem em criticar o concurso (a desculpa do Carnaval é uma simpatia tua ao DN).

    Comentario por Claudio Santos — 2007/02/22 @ 17:51

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