Uma casa e um mercedes - de Rui Campos Matos
Textos de Outrosde
Rui Campos Matos
(escrito para o Diário de NotÃcias da Madeira, secção “Pequenas Casas, grandes arquitectos)
publicado em 17 de Dezembro de 2006
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Uma casa e um Mercedes
Quando, em 1927, a Mercedes-Benz utilizou como fundo para a imagem do seu último modelo desportivo o edifÃcio do Weissenhof do famoso arquitecto Le Corbusier, a ideia publicitária era simples: associar à modernidade radical da arquitectura, a modernidade radical do automóvel. Em 2006, é com alguma estranheza que olhamos para a mesma fotografia. Parece haver ali qualquer coisa de anacrónico: associado ao que continua a ser a modernidade radical da arquitectura, vemos agora um calhambeque de outros tempos…O que terá acontecido para que, passados 78 anos, o edifÃcio tenha conservado integralmente a sua modernidade e o automóvel se tenha transformado num calhambeque?
Simples, o edifÃcio era muito moderno para a época, utilizava a tecnologia mais avançada do seu tempo e tinha sido projectado por Le Corbusier, um arquitecto de vanguarda, talvez o mais influente dos arquitectos do seculo XX, que afirmava que uma casa devia ser, acima de tudo, funcional e desprovida de ornamentos inúteis, como se fosse uma ‘máquina de habitar’.
O argumento parece convincente, mas a realidade é que o Mercedes-Benz de 1927 obedecia exactamente a esses princÃpios: utilizava a tecnologia mais avançada do seu tempo, era funcional, desprovido de ornamentos inúteis, uma verdadeira máquina destinada a transportar pessoas. Nada disso o impediu, porém, de se transformar no calhambeque ultrapassado que vemos na fotografia. A casa continua moderna. Como explicar este fenómeno?
Contra os estilos arquitectónicos que abusavam do ornamento, Le Corbusier gostava de invocar o exemplo dos aviões perguntando: - voariam eles se tivessem nas asas os ornamentos que carregam as fachadas de tantas casas? A função de uma casa, escrevia ele, é proporcionar-nos: 1. Um abrigo contra o calor, o frio, a chuva, os ladrões e os intrometidos. 2. Um receptáculo para a luz e o sol. 3. Um determinado número de células concebidas para cozinhar, trabalhar e para a vida privada.

Baseado nestes cientÃficos princÃpios, projectou, em 1931, uma das casas mais conhecidas e mais marcantes do século passado : a Villa Savoye. O seu estudo é hoje obrigatório em qualquer curso de arquitectura. Tal como o edifÃcio do Weissenhof, a Villa Savoye parece ser a materialização da teoria de Le Corbusier: desprovida de ornamentos desnecessários, de cornijas, de beirados, de telhados, de socos, de pilastras, enfim, de toda a parafernália por ele considerada supérflua e fútil, a casa, tal como um avião ou um automóvel, deveria, acima de tudo, funcionar. O problema é que nunca funcionou. Muito menos à luz dos critérios do seu autor.

Para dizer a verdade, não chegou sequer a cumprir a mais primordial das funções de qualquer casa: abrigar os seus moradores da chuva. Uma semana após a entrada dos Savoyes nos seus novos aposentos, já o quarto do filho metia água a cântaros. O terraço que, apesar da insistência dos seus clientes numa cobertura inclinada, Le Corbusier tinha defendido sempre, apresentando argumentos de ordem técnica e económica, metia água como uma peneira. A carta que Madame Savoye escreveu ao arquitecto em 1936 é eloquente: “Chove no hall, chove na rampa, a parede da garagem está ensopada. Mas o pior é que chove também no meu quarto de banho, que fica inundado quando está mau tempo, porque a água entra pela clarabóia.†Em 1937, o protesto subiu de tom: “Tudo o que tem acontecido é da sua exclusiva responsabilidade e não serei eu a pagar a conta. Por favor, torne esta casa habitável imediatamente. Espero, sinceramente, não ter de vir a recorrer a uma acção legal.†Com o desencadear da segunda guerra mundial, a famÃla Savoye teve de fugir de Paris. Foi o que livrou o arquitecto de responder em tribunal…
Está visto que não devemos nunca tomar à letra o que diz um arquitecto panfletário, uma casa não é uma ‘máquina de habitar’, mas, no século em que o automóvel, o avião e a penicilina triunfavam, dava jeito a Le Corbusier falar em máquinas, em funcionalidade e em critérios cientÃficos para justificar o que, na realidade, não tinha qualquer justificação: as suas opções estéticas e os seus sonhos românticos e irrealistas. A Villa Savoye, tal como o edifÃcio no Weissenhof, podem parecer-nos, à primeira vista, máquinas projectadas para serem apenas funcionais, mas a realidade é que, na sua essência, são acima de tudo magnÃficas esculturas que querem parecer-se com máquinas. Imaculadamente brancas, flutuando sobre relvados, aos olhos dos seus contemporâneos, pareciam de facto naves vindas do futuro. Como podia um pobre Mercedes-Benz - esse sim, obrigado a funcionar com a eficácia de uma máquina - competir com naves espaciais? Não podia e, talvez por isso mesmo, tenha envelhecido tanto na fotografia…

Ainda hoje, para alguns vanguardistas estabelecidos, é difÃcil compreender o apego que grande parte do público - que não dispensa o conforto dos automóveis, aviões e tantos outros objectos modernos - continua a ter pela arquitectura dita ‘tradicional’. De facto, esse público prefere casas com telhado de quatro águas, mas não lhe passaria pela cabeça exigir automóveis com telhados de colmo…Ignorantes? Incoerentes? Não, sabem é distinguir muito bem entre uma coisa e outra. Não existe nenhuma contradição em conduzir um SLK e viver numa villa com um telhado de quatro águas.
Quanto a Madame Savoye e restante famÃlia, cabe-lhes a honra de terem sido ‘pilotos de teste’ de uma ‘máquina de habitar’. Passaram um mau bocado? Lá isso passaram, coitados! mas talvez tenha sido por uma boa causa…
Rui Campos Matos

Excelente artigo, bem estruturado no que respeita à ideia transmitida, deixando-nos a possibilidade de pensar e formar a nossa própria opinião, muito embora o conceito implÃcito seja bem determinado e claro.
Comentario por João — 2006/12/28 @ 11:51