Os Canárias - de Violante Matos
Textos de Outrosde
Violante Matos
(escrito para o Diário de NotÃcias da Madeira, secção “Opinião”)
publicado em 19 de Dezembro de 2006
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Os Canárias
Esta ideia de transformar o calhau da praia Formosa em praia de areia é um disparate. Não me impressiono com as acusações de ‘quinquilharia mental’ com que a conhecida arrogância do presidente da autarquia do Funchal brinda quem discorda das suas opções. É próprio de quem não tem nenhum respeito por opiniões contrárias, de quem não sabe lidar com a diferença, de quem gosta de yes men permanentes e a tempo inteiro, de quem não ouve a cidade, de quem imagina que tratar de uma cidade é mandar cuidar de um roseiral.
Mas também não admira. O pelouro do turismo está, creio que desde sempre, na tutela directa do presidente da autarquia. Pois alguém sabe para onde vai a cidade como oferta turÃstica? Claro que não.
Justifica-se esta proposta com o exemplo de Tenerife. Se resulta em Tenerife, toca a copiar para cá. Sem pensar nas diferenças estruturais das duas ilhas, sem pensar no modelo de turismo que queremos, sem pensar nos nossos visitantes potenciais ou, como se diz, no público-alvo. Ninguém vem para a praia Formosa em alternativa à Playa del Ingles ou a Tenerife. Porquê? Pela simples razão que aquilo que o arquipélago vizinho oferece é completamente distinto do que nós podemos oferecer.
O que o Funchal tem quer ser é diferente; não é uma cópia aldrabada de outros exemplos. O que a Madeira tem que fazer para se tornar verdadeiramente competitiva é oferecer aquilo que só ela pode ter. Porque o que cada vez mais é apelativo é a diferença.
Queremos (ou podemos ter) um turismo de massas, com milhões de pessoas a desembarcar na Madeira? Ou queremos (e podemos ter) um turismo de qualidade?
Queremos propagandear um turismo de sol e praia quando toda a gente sabe que isso não é verdade? Ou queremos - e podemos - oferecer um turismo de natureza, com o que poucos mais têm: um pulo da praia à montanha, às levadas, aos picos, à intimidade e à tranquilidade do interior da ilha, à Laurissilva?
Fala-se em nichos de turismo de qualidade e atiram-se de cabeça para sermos iguais a Las Palmas ou Tenerife? Ainda nem sequer perceberam que se La Gomera, ou La Palma ou Lanzarote continuam casos de sucesso em matéria de oferta turÃstica é porque (ou melhor, é precisamente porque) escolheram outro caminho? Com franqueza digo: Que falta faz a esta ilha um César Manrique!
Precisamos de areia na Praia Formosa para competir com destinos emergentes? Não! Precisamos, sim, de uma Praia Formosa como ela é. De calhau. Diferente. Única.
Precisamos de areia na Praia Formosa para ela se tornar atractiva? Não! Do que precisamos é da requalificação urgente do espaço envolvente. Com equipamentos e apoios de praia bonitos, de qualidade, aliciantes. E já agora, sem operações de especulação imobiliária nas redondezas.
Precisamos de areia na Praia Formosa para o Funchal se tornar um belo destino turÃstico? Não! Do que precisamos é de ter uma cidade limpa e convidativa, de bons equipamentos, de um património edificado cuidado, de oferta cultural própria. O que precisamos é de ter uma Marca Funchal.
Na Praia Formosa queremos sentir o mar. Não queremos, outra vez, um enrocamento a fazer-nos mergulhar num poço de água choca.
Esta mentalidade de querer à viva força fazer da Madeira um destino à imagem do pior que Canárias tem é tão tacanha e tão limitada, que até aflige. Para tais mentalidades, é Deus no céu e Canárias na terra. É mesmo por isso que são conhecidos como “Os Canárias”.
Não concordo com o que se quer fazer e disse porquê. Não me fecho à inovação. Mas não acho que devamos embarcar em tudo o que é ‘novidade’. Pelo contrário, penso que devemos aprender, enquanto vamos a tempo, com os erros dos outros.
Sugiro que se conheça o exemplo das Baleares. Maiorca. Calviá.
Um municÃpio onde o desordenamento e a sofreguidão pelo lucro foram tais que, a certa altura, se atingiu a ruptura. O turismo, da ânsia da oferta e da competição, passou à decadência. As pretensas ‘mais-valias’ transformaram-se em factores de colapso. Foi preciso chegar à presidência da autarquia local uma mulher de fibra e com visão, para travar o abismo e a ruÃna. Foi preciso demolir muitos equipamentos, entre os quais hotéis de grande dimensão que deram lugar a jardins. Foi preciso requalificar todo o municÃpio. Foi preciso uma acção conjugada de planeamento, preocupações ambientais e sensibilidade para Calviá mudar de rumo. Ainda foi a tempo.
Desejo, para o Funchal, um caminho igual. E sem areia amarela na Praia Formosa.
