O Futuro é que interessa

Artigos de Opinião

Ano novo, vida nova. Esta frase feita, cheia de optimismo, expressa bem o sentido que devemos ter no presente: que o passado foi apenas o caminho para chegarmos aqui e que o que interessa mesmo é escolher o caminho que queremos percorrer daqui para a frente. O início deste ano coincide também com outros inícios. Os municípios têm desde há pouco tempo novas equipas à frente do desenvolvimento dos seus Concelhos. Esta é assim a oportunidade de apontar novos objectivos e assumir novas vontades, para o desenvolvimento de cada Lugar.

A Madeira, tem assente o seu desenvolvimento em duas indústrias que, logo à partida, se afiguram incompatíveis: o Turismo e a Construção Civil. O Turismo, por tradição e pelas características da ilha incluiu a Madeira, a partir dos anos 60, no conjunto de destinos internacionais. Aqui tem-se vendido sobretudo a paisagem, o clima e a condição de ilha perto do continente europeu. A Construção Civil, tem crescido desde os anos 80 no colmatar de insuficiências estruturais e habitacionais que Região tinha na altura, tendo-se construído muito “hardware” que, indubitavelmente, modificou a paisagem.

Desafortunadamente os fundos de coesão europeus, a sua maior parte destinados à construção das infra-estruturas, pressupunham que cada país ou região dispusesse do “software” necessário à sua adequada implementação. Errado. A maior parte não estavam preparados para utilizar, de forma sustentável, os recursos que lhes foram postos à disposição. Quando se fala de “software”, fala-se obviamente de um conjunto de planos de ordenamento do território que deveriam suportar as modificações que se iriam operar no terreno. Aconteceu, por isso, aquilo que está à vista de todos: áreas urbanas desqualificadas, a paisagem rural degradada e algum património ao abandono. Hoje as infra-estruturas indispensáveis estão construídas, algumas de grande qualidade e um parque habitacional que chega para as necessidades.

Porém, este desenvolvimento acelerado desgastou o território. É certo que se mantém o clima e a proximidade do continente Europeu, mas também é verdade que há muito mais lugares em competição directa com a Madeira. Por isso, há que aproveitar este início, para mudar o rumo sob a pena de, não o fazendo, comprometer o bem-estar e sucesso das novas gerações; há que tornar compatível a Construção Civil e o Turismo com vista a um desenvolvimento sustentável e, obviamente, potenciar as características singulares da ilha. Para isso é preciso definir dois objectivos. Em primeiro lugar há que começar a construir, ou reconstruir, aquilo que se anuncia e quer fazer, uma Madeira SPA*, feita de natureza e paisagem. Em segundo, assumir os erros cometidos numa ocupação do território sem regras e desordenada optando por outras estratégias, pensando e preparando território antes de agir. Assim será possível salvar e requalificar um território de reconhecida beleza natural, atraente para os visitantes que buscam mais que uma cadeira num solário à beira de uma piscina de hotel. Não é difícil, só é preciso haver vontade e acreditar.

Vive-se hoje um período de crise. “Porém, contra o que à primeira vista se possa supor, um período de crise não é um tempo estéril, De modo algum. Cada crise funciona como um momento necessário de desmontagem e adaptação do ciclo antecedente em vista das novas realidades nascentes” **. O Futuro é que interessa.

* SPA – do latim sanus per aquam (saúde pela água), designação para um complexo turístico que providencia actividades de lazer saudáveis.
** citação de Aragão Mendes Correia pelo arquitecto Rafael Botelho nos Colóquios de Urbanismo no Funchal em 1969

Funchal, 3 de Janeiro de 2006

2 Comentários »

  1. Concordo com o sentimeto de fundo e com as ideias concretamente expressas. Acho essencial criar uma ideia do futuro que se pretende acentuando que o presente é o tempo da acção. Se nada mudar no nosso presente, exactamente no agora, é certo que o futuro idealizado foi tempo perdido.
    Relativamente ao Turismo e, mais particularmente, ao espírito revelado pelos nossos gestores hoteleiros, a avaliar pela forma como são geridos os equipamentos/actividades de lazer virados para a saúde nos hotéis, creio que há uma necessidade urgente de “informação” e sensibilização, a fim de que “Madeira SPA” tenha alguma hipótese de concretizar-se. A qualidade dos profissionais envolvidos na organização e prestação de serviços ao cliente do SPA tem de ser a melhor e esses profissionais têm o seu justo preço. Frequentemente, o gestor hoteleiro pensa que o cliente “leva gato por lebre” e cada vez mais isso é menos verdade (felizmente!) Tenho dito…

    Comentario por Ana Isabel Freitas — 2006/01/24 @ 11:39

  2. “O desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades”
    Infelizmente, o povo superior olha com desdém e desprezo qualquer tentativa de reorientar as práticas de desenvolvimento com as de protecção ambiental a longo prazo.A Madeira possui um enorme potencial para realizar um desenvolvimento sustentável baseado naquele que é o seu bem mais precioso: o meio ambiente e sua diversidade climática e paisagística, que poderiam agradar a uma gama de potenciais consumidores;
    a grande evolução, verificada nos últimos anos, do turismo que procura pousadas, hotéis rurais e outros parece não ter qualquer eco na nossa ilha, visto que se continua a apostar no turismo de massa não controlado e sem planeamento que é capaz de degradar a nossa estrutura sócio-ambiental de maneira bastante crítica e, a longo prazo, fazer com que não tenhamos nem um nem outro tipo de turismo…

    Comentario por Cristina Pinto — 2006/04/13 @ 10:39

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