Escolas em concepção/contrução

Artigos de Opinião

As escolas que frequentámos deixaram-nos quase sempre memórias dos espaços que ofereciam e onde passámos uma boa parte da juventude.
Da escola primária recordo o pátio com árvores frondosas que dominavam o terreiro onde brincávamos. Os anos seguintes foram passados em duas escolas construídas durante o Estado Novo. A Manuel da Maia e a Josefa d’Óbidos ofereciam-nos espaços amplos, salas cheias de luz mas protegidas de um sol directo, áreas de recreio e desportivas apelativas. O Liceu Pedro Nunes, esse mítico liceu desenhado pelo arq. Ventura Terra no princípio do séc. XX, continha uma solenidade que se expressava tanto no átrio de entrada, como nas salas de aula, no ginásio antigo ou, ainda mais, na fachada da Av. Pedro Álvares Cabral. No 12º ano, ao contrário dos espaços qualificados a que me tinham habituado, obrigaram-nos a passar um ano inteiro dentro de uns caixotes pré-fabricados sem condições nenhumas onde gelávamos no Inverno e torrávamos do Verão. Sem espaços exteriores convidativos, assim que podíamos fugíamos desses contentores a sete pés. As escadas do Convento de S. Francisco, ali ao pé da Baixa e do Chiado, levaram-me nos cinco anos seguintes às aulas de arquitectura. Um antigo convento, que foi hospital, biblioteca, quartel, albergou durante vários anos, depois de obras do arq. Cristino da Silva, a Escola de Belas Artes e, até há pouco tempo, a faculdade de arquitectura. A péssima acústica das salas de aula era compensada pela beleza dos seus arcos, a dimensão dos espaços e as vistas sobre os pátios.

É indubitável a influência que os espaços escolares têm na formação e bem-estar dos alunos que aí passam uma boa parte da sua vida. Um espaço confortável, com luz, espaços verdes, parece-me indispensável ao desenvolvimento e dos mais jovens. A sua arquitectura, além de bela e cumprir a sua função, deve também ser formativa.

As escolas feitas na Madeira nos últimos tempos ficam muito aquém daquelas que marcaram as gerações que passaram pelo Liceu Jaime Moniz ou pela Francisco Franco. Quase todas feitas a partir de um projecto tipo, numa arquitectura pretensamente “regionalista/tradicional”, de complexa adaptação a um território com uma orografia pouco confortável, estas escolas têm resultado em objectos sem interesse arquitectónico que, em alguns casos, até têm contribuído para a desqualificação do território.

Não bastando esta estratégia, que em nada qualifica a obra pública, o governo regional tende agora a estender a sua política dos concursos concepção/construção, ao equipamento escolar. Com é sabido, este tipo de concursos são ganhos, essencialmente, pelo preço que apresentam, condicionando fortemente as soluções e a qualidade arquitectónica. São inclusivamente concursos que não interessam minimamente aos empreiteiros concorrentes, que investem em projectos de execução de arquitectura e especialidades só para apresentar um preço.

A adopção desta estratégia com concursos concepção/construção para a obra pública é já por si condenável. Mas é ainda mais grave quando aplicada a equipamentos tão importantes como os equipamentos escolares.
Numa região que tem assistido à construção de vários equipamentos culturais, revelando um interesse e uma aposta nesta área, não se compreende como é possível os mesmos responsáveis apostarem tão pouco na qualidade das escolas.

Sabendo que não é só a Madeira que enferma desta deficiência, pois no resto do país assiste-se a um fenómeno semelhante, parece-me que a Região Autónoma da Madeira poderia fazer aqui a diferença pela positiva.

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