Cidades sem Conteúdo
Artigos de OpiniãoNo passado dia 21, o Funchal comemorou o dia da cidade. Perfazendo 498 anos, esta cidade prepara-se para celebrar quinhentos anos de história; uma história rica, de uma cidade dinâmica e em crescimento. Embora já se tenham começado a celebrar (!?) os 500 anos da cidade, não deixa de ser curioso que não tivesse havido, neste dia, qualquer evento que evocasse essa efeméride ou que incentivasse os seus cidadãos a uma participação mais entusiasta no dia da sua cidade; uma festa da cidade. O desentendimento do que é comemorar 500 anos de uma cidade, é paralelo com o desinteresse pela cidade demonstrado pelo Presidente da Câmara Municipal do Funchal e patente no discurso que proferiu na sessão solene do dia 21. Nem uma palavra sobre o estado actual da cidade, da qual tem sido responsável há mais de 12 anos, nem uma palavra sobre o futuro. Mais uma razão para crer que não há, como não tem havido nos últimos anos, um rumo para a cidade e objectivos concretos a alcançar.
Enquanto ouvi aquela lista de queixas e angústias relativamente a leis futuras que não justificam o passado, pensei no discurso que gostaria de ter ouvido naquele dia, por um Presidente da Câmara Municipal da minha cidade.
Cinco tópicos para um discurso sobre a cidade:
1- o futuro é promissor. Tratando-se de uma das cidades mais dinâmicas do paÃs, com capacidades de desenvolvimento que lhe são reconhecidas, é possÃvel, mesmo perante as adversidades que nos esperam, dar um passo em frente e fazer do Funchal uma cidade agradável de viver e atractiva para os visitantes.
2- os erros cometidos, não justificam determinadas práticas que conduzem a erros semelhantes. É por isso necessário que os cidadãos estejam preparados para a mudança, pois está provado que o caminho que seguimos até hoje, apesar de melhorar as condições de vida de alguns e dinamizado a economia, tem destruÃdo alguns bens que constituem o nosso maior capital, nomeadamente a paisagem, seja urbana ou rural, algum património arquitectónico e o carácter da nossa cidade.
3- errar é humano. Admitindo que a falta de interesse e a pouca importância que se deu ao planeamento urbanÃstico foi um erro com consequências que estão à vista de todos, patentes nas áreas de expansão da cidade, assume-se o compromisso agora, de traçar o desenvolvimento da cidade assente numa série de instrumentos de planeamento urbanÃstico que seguirão um plano estratégico a ser elaborado com a participação dos cidadãos.
4. o património arquitectónico faz parte da identidade do Funchal e da memória colectiva. A partir de agora iremos definir linhas gerais de intervenção no Centro Histórico e desenvolver uma série de Planos de Salvaguarda para determinados conjuntos que se considerem com carácter digno de ser preservado.
5. A par das grandes ideias que devem orientar o desenvolvimento da cidade, há intervenções pontuais que se revelam urgentes para a requalificação urbana desta cidade. Apesar de contrariar algumas decisões do passado, chegou-se à conclusão que: a remoção do balão da Av. do Mar vai ao encontro da vontade da maior parte dos funchalenses; o parque de Santa Catarina não deve ser engradado e deve sofrer obras de remodelação para o tornar mais atractivo; não serão permitidos mais projectos que destruam a escala do Centro Histórico; os projectos de espaço público serão elaborados por equipas multidisciplinares coordenadas por arquitectos ou paisagistas; a renovação do núcleo histórico de Sta. Maria se encarada de forma séria e convicta.
Com um discurso que assentasse nestes pontos, ou noutros com substância e visão de futuro, teria ficado mais descansado relativamente ao desenvolvimento da minha cidade, o Funchal.
30 de Agosto de 2006
