quando a obra nasce é para todos - de Pilar Luz

Textos de Outros

de
Pilar Luz
(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Arquitectura e Território)

A arquitectura enquanto disciplina não se esgota na construção. O seu objectivo está para além da materialização de projectos embora as obras construídas se assumam como uma fase determinante no ciclo da produção arquitectónica. Na verdade, é a construção que permite os avanços e recuos de toda a produção de uma disciplina cuja acção interfere nos vários domínios da acção humana e que é um indício, de manifestação clara mas aferição subtil, do estado de desenvolvimento da sociedade que a produz. A arquitectura é indício de acção humana, tal como uma pegada é indício da passagem de um animal, e a subtileza da sua aferição reside na distinção que se consegue fazer entre progresso e atropelo, crescimento e alastramento, e entre rentabilização e exploração. Somos capazes de reconhecer a qualidade, o valor e a influência de algumas obras de arquitectura que se inserem nas categorias de ícones e símbolos mas uma vez que a sua produção é muito específica, pontual e de autor é necessário focar a atenção na arquitectura que se produz anonimamente e em grande escala. As obras anónimas são responsáveis pela quase totalidade da construção e são estas que habitamos e que transformam indelevelmente o nosso território.

No contexto de uma produção arquitectónica alargada mesmo as experiências mais teóricas, ou até utópicas, fornecem importantes contributos principalmente nas componentes de crítica e auto-crítica mas na verdade é a construção que permite o teste, a verificação e correcção de métodos construtivos, tipos, formas, programas, etc. No entanto, não é a construção que valida as propostas arquitectónicas mas sim o modo como estas são apropriadas pelos seus utilizadores. A materialização de um projecto de arquitectura é como a publicação de um livro; é o completar de um trabalho criativo com as suas críticas e o retorno destas ao autor como incentivo a uma nova obra. Isto não significa que todas as obras tenham de ter um carácter experimental nem que cada obra seja candidata a ser excepcional. Os meios e custos implicados põem de parte a execução de algumas propostas arquitectónicas e urbanísticas mas a racionalização de recursos e o investimento num adequado projecto de execução e respectivo caderno de encargos em muitos casos seria suficiente para uma melhoria significativa da qualidade do ambiente construído. Este investimento no projecto, para além de ser fundamental para a previsão e controlo de custos e da qualidade da execução, pode permitir que a última palavra não seja a dos interesses comerciais imediatos.

Como qualquer actividade criativa e produtiva, a arquitectura está sujeita a um vasto conjunto de influências pelo que o acto de projecto pode ser individual mas nunca será isolado. Mas, mais que um acto aberto, um projecto de arquitectura é um bem comum; é um contributo para a disciplina mas também para a sociedade em geral apenas representada pelo autor e pelo dono da obra. Assim sendo, a crítica da sociedade em geral - uma crítica não especializada ou feita por pares - deve fazer parte deste ciclo. Os projectos materializados, ou as obras construídas, por serem mais visíveis e por interferirem directamente na vida quotidiana deviam suscitar esse retorno dos utilizadores. Apesar disto, e salvo iniciativas esporádicas, assiste-se a uma sistemática falta de observação e de crítica objectiva que tem vindo a permitir a repetição de erros e lacunas que se toleram e que são aproveitadas pelo mercado imobiliário.

Ao longo da história existiram vários momentos em que nos deparamos com uma inoperatividade da crítica mas que eventualmente foram ultrapassados pela apresentação de modelos consistentes. Hoje deparamo-nos com a queda do modelo moderno, com várias tentativas falhadas de substituição e com a falta de uma crítica alargada. A arquitectura sempre procurou fundamentar os seus modelos fora de si como forma de evitar a redundância mas o actual contexto ideológico, no qual deambulam também as outras disciplinas, não tem apresentado alternativas categóricas. Toda esta conjunção leva o projecto de arquitectura a desenvolver-se num processo em que o arquitecto é também o teórico e o crítico. Quase seremos narcisistamente tentados a acreditar que essa seria a solução mas propomos a crítica da sociedade em geral como hipótese para a introdução dos novos elementos necessários ao aparecimento de alternativas. Se ao arquitecto se pede que seja ecléctico, o dono da obra e o comprador, o habitante e o visitante também o devem ser pois são eles que no conjunto têm o poder de decisão e de acção. O cidadão deve informar o seu sentido crítico no que diz respeito à arquitectura e ao território integrando conhecimentos de diferentes áreas para de um modo mais consciente poder intervir.

Vamo-nos manter afastados de critérios mais subjectivos, como a forma, para nos concentrarmos noutros mais objectivos como por exemplo a qualidade de construção, a distribuição de áreas, a exposição solar, as infra-estruturas, os serviços ou transportes e entender que algumas das características que a promoção de empreendimentos imobiliários publicita podem encobrir défice de outras - como os acabamentos de luxo em detrimento da qualidade dos espaços ou os condomínios fechados como forma de camuflar a falta de urbanidade. Será também necessário deixar de entender contributo do arquitecto como um extra e mas sim como uma mais-valia para o todo que a obra e o ambiente construídos representam. Já vai longe o tempo em que o barbeiro arrancava dentes, tal como nos lembramos de ver nos velhos westerns. A necessidade e a escassez de recursos apelava a esse tipo de polivalência mas as necessidades de hoje, embora ainda possam estar sujeitas a algum tipo de restrições, no que se refere a recursos humanos qualificados essa questão já não se põe. Fica também feita a ressalva de que a responsabilidade técnica está para além de uma assinatura no projecto de arquitectura e que muitas das obras que hoje temos são resultado de uma lei obsoleta que permite que ainda hoje muitos técnicos cujas competências foram alargadas em circunstâncias de emergência assinem grande parte do nosso ambiente construído.

Porque a arquitectura é um bem comum, pede-se ao cidadão que olhe para o território, para as cidades e para os espaços e objectivamente reconheça e critique o nosso modo de habitar, a nossa forma de desenvolvimento em sociedade. É necessário rever o nosso olhar para que a qualidade das obras possa ultrapassar a médio-cridade.

Pilar Luz
arquitecta

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