O Projecto (2)
Artigos de OpiniãoAo contratar os serviços de um arquitecto, parece-me importante que se tenha, antecipadamente, uma noção básica do que é que constitui um projecto, desde a inicial fase de estudo, até à concretização em obra que, consoante a sua complexidade, pode variar no seu faseamento. Assim, considerando como exemplo o caso de uma moradia unifamiliar, o projecto poderá evoluir da seguinte maneira. Na primeira fase, depois do cliente/dono-de-obra expor os seus objectivos quanto ao tipo de casa que quer, o arquitecto definirá o Programa Base. Nas conversas sobre este assunto, ambas as partes deverão ser muito claras, por um lado expondo ao arquitecto a sua maneira de entender e viver os vários espaços, que área necessita, quanto quer gastar, etc, para que o arquitecto possa entender bem quem irá habitar a sua futura obra. Este, por sua vez, deverá não perder de vista que a obra de arquitectura que vai levar a cabo não é para ele próprio habitar mas sim para a pessoa que o contratou. Seguem-se os primeiros esboços pelo arquitecto que deverão servir de base a algumas conversas entre ambos. Estas duas fases, a elaboração do Programa Base e o Estudo Prévio, serão o tempo mais proveitoso e interessante que passará com o arquitecto. É nesta altura que se procede a uma valoração sobre o que se deseja, o que na realidade se necessita e o que na verdade se pode chegar a construir. Definida esta fase deverá passar-se ao Projecto Base, tendo consciência que não se deverá avançar para uma fase seguinte sem estar bem ciente das opções tomadas, pois as alterações feitas no papel são mais baratas do que depois de estar a construir. Este projecto é aquele que irá constituir o Projecto a entregar na Câmara Municipal para obter o licenciamento e, a par disso, é o projecto que servirá de base ao estudo dos vários projectos de especialidades. A função do arquitecto será a de coordenar a equipa composta por diversos especialistas, que executarão os diversos projectos (estruturas, águas, esgotos, electricidade, térmica, acústica e paisagismo), de forma a conciliarem-se em harmonia com o projecto geral de arquitectura. Ao mesmo tempo inicia-se o Projecto de Execução de Arquitectura. Aqui, com alguns dados que vão sendo fornecidos pelos projectos especiais, vai-se redefinindo o projecto a escalas diferentes que agora dão lugar a desenhos mais pormenorizados, detalhes construtivos, escolhas de materiais, apreciação de custos, etc. É importante ter atenção que estas fases a seguir à entrega na Câmara do Projecto Geral de Arquitectura, só deverão avançar depois de uma aprovação pela Câmara. Acabado o Projecto de Execução, que deverá incluir um Caderno de Encargos com as condições e definições da empreitada e ainda uma listagem com as medições dos trabalhos a efectuar durante a obra, deverá passar-se à consulta de potenciais empreiteiros. Contratado um deles, inicia-se a obra. O arquitecto deverá acompanhar a obra, quando solicitado, para o esclarecimento de algumas situações que possam não estar suficientemente definidas no Projecto. Este trabalho de acompanhamento de obra não deve ser confundido com a fiscalização, que deverá acompanhar o dono de obra logo antes do concurso de empreitada e poderá ser prestada por uma outra entidade. O processo que descrevi atrás, desde a escolha do arquitecto até ao primeiro de dia em que se mete a chave à porta, seria o ideal. No entanto, sabemos que nem sempre é este o caminho percorrido. Contudo há que reter a ideia de que um projecto rigoroso contribui para menos alterações em obra, um maior controlo de custos e um melhor resultado final.
Funchal, 5 de Janeiro 2005
LuÃs Vilhena
