Funchal, sem vista sobre o Futuro

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Como no filme “Um quarto com vista sobre a cidade”, no princípio do séc. XX uma certa burguesia, principalmente proveniente de Inglaterra, fazia-se passear por Itália deliciando-se com a visita aos monumentos e paisagens da Toscânia. Logo no princípio do filme a janela abre-se deixando ver o rio Arno, a torre do Pallazo Vecchio e, logo de seguida, a cúpula do Duomo projectada por Brunelleschi, capaz de encantar até os mais distraídos. A primeira parte do filme, recheada de imagens dessa cidade renascentista, deixa-nos admirar ainda a Piazza Signoria e a Galleria degli Uffizi pelos olhos de Ivory. São imagens que, como a própria cidade, podem ser revistas inúmeras vezes sem nos enfadarmos. Esta cidade, deve uma parte da sua história a uma só família que, durante três séculos governou Florença. A família Medici deixou obras que, na altura, serviram para demonstrar o seu poderio e riqueza, para tornar a sua cidade distinta das outras e afirmar o espírito renascentista. Rodearam-se dos melhores artistas e arquitectos e edificaram um património que nos permite, ainda hoje, desfruta-lo. Sem saberem, construíram um valor que, a partir de certa altura passou a constituir um recurso. Este recurso, que os florentinos herdaram das gerações anteriores, fez com que a população triplicasse no século XX à custa da indústria do turismo e também, que seja nos dias de hoje uma das cidades mais ricas e desenvolvidas de Itália.
Agrada-me particularmente esta ideia de saber que podemos estar a construir hoje um património de qualidade, que cumpre a função para que foi criado, mas que poderá mais tarde servir outra função qualquer e, melhor, ser uma fonte de riqueza e não um fardo para as gerações que se seguem. A Madeira tem o exemplo das Levadas. Construídas para servir de sistema de recolha e distribuição de água, são hoje em dia um recurso e um cartaz turístico. A cidade do Funchal que, durante o séc. XX, até determinada altura, soube valorizar o seu património sem que isso implicasse pôr em causa a sua modernidade, tem deixado passar algumas oportunidades de construir, hoje, um património de qualidade. Grandes obras estão previstas para a cidade nos próximos anos. O Pavilhão Multiusos, o Museu de Tecnologia e Inovação, a Gare Marítima do Porto do Funchal, a Biblioteca Municipal e por fim o novo Aquário da Madeira com a renovação do porto, são obras que vão “mexer” com a cidade. Parece-me no entanto que todas estas obras foram pensadas de forma avulsa, sem um fio condutor e ligadas a uma ideia de cidade. Não se conhece planeamento nem desenho urbano que suporte todas estas obras estruturantes. O caso mais notório é o da intervenção no porto do Funchal e da sua ligação à cidade. Por um lado a Câmara não tem uma visão global sobre uma requalificação desse espaço único que é a marginal desde do Forte de São Tiago até à marina, deixando acontecer e promovendo obras avulsas sem qualquer ligação entre elas; por outro, a requalificação do espaço portuário, que dispõe de um plano que poucos se lembram de ter ido a discussão pública, tem sido pensada ao contrário: primeiro os objectos arquitectónicos e depois o espaço público. Como se não bastasse, apesar de ser reconhecível uma continuidade destas duas zonas da cidade, não há ninguém a pensar numa intervenção de conjunto. Aquilo que poderia vir a ser a grande obra do início do séc. XXI, vai concerteza ser um somatório de acontecimentos urbanos que, no conjunto, não trazem qualquer mais-valia para a cidade. Não estaremos ainda a tempo de repensar a renovação deste espaço de excelência que é toda a frente marítima do Funchal? Não estaremos ainda a tempo de construir património que venha a constituir um recurso para as futuras gerações?

27 de Novembro de 2005

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