Da obra de Chorão Ramalho na Madeira

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A obra de Chorão Ramalho contém algumas características que aprecio particularmente no trabalho de um arquitecto. Sendo uma obra moderna, inclui ao mesmo tempo uma série de valores e elementos que vão beber à arquitectura tradicional. Apesar de ser reconhecível a sua assinatura em quase toda a obra, esta não se repete a si mesma, denunciando em cada peça novas experiências. Nas suas intervenções revela um apurado sentido do lugar, seja em situações urbanas seja no meio de uma paisagem rural. Por fim, passados 40 ou 50 anos sobre algumas das suas obras podemos comprovar, na sua maior parte, um envelhecer com dignidade e um valor intemporal, próprios de uma arquitectura com carácter.
Na Madeira a sua obra tem relevante importância não só pelo lugar que ocupa numa determinada época, mas também porque serve de mote e detém alguns ensinamentos para uma nova geração de arquitectos que aqui fazem a sua obra. Este arquitecto marca o arquipélago sobretudo nos anos 50 e 60. Sem retirar valor ao resto da sua obra, sublinho quatro peças: a Capela do Cemitério das Angustias na forma como o conjunto estrutura a entrada do recinto e na poética impressa no interior da capela; a casa Bianchi, com o seu reportório de referências à arquitectura vernácula da Região; o edifício Freitas Martins, na Av. do Mar, revelando o seu entendimento de uma intervenção urbana num conjunto consolidado; e o edifício da Caixa, no centro do Funchal, pelo controle da escala urbana. Esta última peça sintetiza de alguma forma a sua obra na Madeira. Trata-se de um conjunto urbano que, apesar da sua dimensão, consegue uma integração ajustada à escala das ruas envolventes, utilizando uma linguagem moderna, encontra um diálgo compreensível com a arquitectura local e, passados mais de 30 anos, permanece actual resistindo a todas as transformações e adaptações sofridas.
Raul Chorão Ramalho é, sem dúvida, um dos arquitectos incontornáveis da ilha, tanto pela obra que aqui deixou como pelos caminhos que abriu para o futuro da arquitectura da Madeira.

Funchal, 18 de Janeiro de 2005

Luís Vilhena

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