Arquitectura para os arquitectos? - de Rui Campos Matos
Textos de Outrosde
Rui Campos Matos
(escrito para a Revista do Diário de NotÃcias da Madeira - secção Arquitectura e Território)

Durante os vinte meses que durou a obra, antes de dar inÃcio à reunião, era preciso avaliar o estado de embriaguez do encarregado fazendo-lhe duas pequenas séries de perguntas lógicas. Consoante o resultado deste improvisado teste do balão, assim a dita reunião seria ou não adiada.
Nesse dia resolvi perguntar-lhe o que era uma cadeira.
- Uma cadeira é um assento com quatro pernas e um encosto - respondeu ele.
- E se só tiver duas pernas?
- Se só tiver duas pernas cai!
As respostas pareceram-me satisfatórias, o bafo a carrascão que as acompanhava é que não era bom prenúncio. Decidi passar à segunda série:
- E o que é uma casa?
- Uma casa? Bem, uma casa, são quatro paredes e um telhado.
- E se não tiver telhado?
- Se não tiver telhado…é porque foi projectada por um arquitecto.
Tentei explicar ao homem que o abuso do vinho só lhe traria infelicidade e que, a resposta correcta, teria sido: “se não tiver telhado, chove lá dentroâ€. Mas foi impossÃvel convencê-lo. Que não, insistia ele com a teimosia dos avinhados, que o primo, desenhador-projectista, fazia telhados, que os arquitectos é que fazem casas sem telhado, casas “diferentesâ€. A reunião acabou por ser adiada.

Hoje, concluÃda a obra (com oito meses de atraso), vejo-me forçado a reconhecer que, apesar da imperfeição dos rebocos, havia alguma clarividência na embriaguez daquele encarregado. Para ele, tal como para a maioria dos cidadãos sóbrios deste paÃs, os arquitectos existem para fazer “diferenteâ€. Não fazem como os engenheiros civis, agentes técnicos ou desenhadores que, ao abrigo do decreto-lei 73/73, com eles concorrem no mercado do projecto de licenciamento. Fazem “diferenteâ€. Da sua intervenção não resultam edifÃcios nem mais funcionais, nem melhor integrados na paisagem, nem de melhor qualidade construtiva. Não, o que resulta da intervenção dos arquitectos é “o diferenteâ€. É obra de artista, diz-se, e a Arte é isso mesmo, o “diferenteâ€, o original.
A sociedade acolhe com entusiasmo esse “diferente†quando se trata de construir edifÃcios emblemáticos, edifÃcios que pretendem representar os nossos sonhos (ou a nossa loucura…) - um museu, um teatro, um monumento.
Quando o que está em causa são vinte modestos apartamentos para albergar vinte modestas famÃlias, a escola onde os filhos dessas famÃlias estudam, ou o hospital onde todos esperam e desesperam, o artista passa para segundo plano, é como aquele primo brasileiro que aparece de shorts no casamento de famÃlia - tolera-se porque não há outro remédio. É esta a visão que a sociedade tem do arquitecto e do papel que ele nela desempenha.
Estará assim tão desfocada? Não está. E continuará a não estar enquanto os cursos de arquitectura insistirem em formar “artistasâ€, gente destinada à obra emblemática, gente para quem um projecto não é, primeiro que tudo, um exercÃcio de humildade e de bom senso. Um exercÃcio que começa pela leitura atenta do sÃtio onde o edifÃcio há-de encaixar, que passa pelo conhecimento dos meios técnicos ao alcance de quem o vai construir e pelo conhecimento das necessidades de quem o vai habitar.

Em regiões como a Madeira, ultraperiféricas, de recursos limitados, fortemente dependentes do turismo e, consequentemente, da qualidade ambiental que souberem conservar, a componente técnica da formação do arquitecto revela-se essencial. E quando falo em técnica, não me refiro exclusivamente à s tecnologias construtivas, incluo nela a capacidade de estabelecer equilÃbrios de escala, de saber ver e aprender com o exemplo dos construtores anónimos que, no passado, tão bem souberam lidar com a escassez.
O paradigma vigente do “artista que faz diferente†serve quase sempre para encobrir o do indigente que faz de artista…Por isso, sempre desconfiei da cruzada corporativa em que a classe reclama para si o exclusivo do projecto de arquitectura. Sobretudo quando lhe escasseiam os meios de garantir patamares mÃnimos de qualidade. Arquitectura para os arquitectos? Melhor seria se os arquitectos fossem capazes de provar que a sua intervenção se traduz num acréscimo de economia e bem-estar para quem dela beneficia. Melhor seria se a exigência dos consumidores se encarregasse de varrer do mercado os que projectam sem competência para tal.

Reclamando para si a exclusividade dos actos profissionais que lhe são próprios, uma classe torna-se também exclusivamente responsável perante todos pelo que faz de bem ou de mal feito. Valha-nos isso! Até lá, engenheiros civis, agentes técnicos, desenhadores-projectistas e até alguns trolhas, vão preenchendo o vazio que os “artistas†semeiam à sua volta.
Rui Campos Matos
Arquitecto

O problema é mesmo este. Na sociedade e na “cultura” portuguesa, enquanto existirem pseudo-intelectuais que acham que nós, os arquitectos somos uma classe que tem como capricho, o fazer diferente só por fazer, estaremos dependentes da escassa encomenda privada com algum amor a ter algo diferente.
Comentario por jose luis santos — 2005/10/30 @ 10:34
Concordo com a análise feita neste artigo de opinião.
Fazem-nos falta arquitectos com a clarividência do Rui Matos.
Fazem sempre falta arquitectos que saibam simultaneamente ler com desprendimento o que querem os donos-de-obra, o que podem eles próprios acrescentar da sua ‘verve’ aos projectos e o que devem razoavelmete exigir das especialidades, nomeadamente a estrutural. Eles são poucos, mas nós que lidamos no mesmo meio, sabemos onde eles estão…
Comentario por Pedro Amaral — 2006/02/22 @ 14:51
Já é altura de, de uma vez por todas, a arquitectura ser vista como um serviço que é prestado a alguém que compra esse serviço, e que seja um serviço de qualidade. Se quem pagou não ficou satisfeito com o que comprou ( e muitas vezes isso não é sentido de imediato)vai, com certeza questionar-se da utilidade ou vantagem de ter pago tal serviço;
Parte-se do prÃncipio que a Arquitectura vai produzir uma melhoria da qualidade de vida das pessoas, mas quando as expectativas de quem paga um serviço são defraudadas, não se espere que isso abone a favor da classe que promove esse serviço.
Quando se exigir em nossa casa a presença de arquitectura de qualidade e não tivermos ilusões de que isso significa despesa(a boa arquitectura tem que ser paga)mas uma despesa que se converte num investimento que trará mais valias ao longo de muito tempo, só então se encarregará o mercado de eliminar de forma natural os patos bravos e seus sucedâneos.
Comentario por Cristina Pinto — 2006/04/13 @ 12:35
Eu concordo pleinamente com o que está escrito, eu sou estudante de arquitectura do 1ª ano e observo que ainda hoje em dia as pessoas nao entendem o que é a arquitectura, apesar de muito cultas que querem transparecer.
Assim a “boa arquitectura” para muita gente nao passa da imagem de uma vivenda bonita com piscina jardim e uma aparencia agradavel.
Merda! isso qualquer um consegue fazer…
Comentario por claudio — 2007/09/18 @ 1:23