O Projecto (1)
Artigos de OpiniãoUma boa parte das pessoas que procura os serviços de um arquitecto tem uma ideia muito nebulosa dos serviços que está a contratar, ou mesmo, não sabe sequer em que consiste um Projecto de Arquitectura. Infelizmente a Arquitectura ainda não faz parte dos factores de qualidade da maior parte dos cidadãos. Por isso a sua importância para a qualidade de vida de cada um é menosprezada e relegada para segundo plano sendo ultrapassada por outros interesses. Há assim uma série de factores que deveriam ser do conhecimento de quem tem que recorrer aos serviços de um arquitecto.
Em primeiro lugar há que escolher o arquitecto. Para o fazer, se não se conhecer pessoalmente nenhum, ou mesmo que se conheça, o mais sensato seria tentar conhecer várias obras no sentido de elaborar uma lista de arquitectos que eventualmente poderão responder com um projecto, à partida, muito perto das suas expectativas. A partir desta lista, para além de procurar obter referências dos donos dessas obras sobre o trabalho do arquitecto que fez o projecto, poderá ser determinante uma entrevista com cada um. Nessa entrevista, poderá conhecer o seu local de trabalho, a estrutura da sua equipa, falar sobre o seu método de trabalho e outros detalhes sobre como irá desenvolver o projecto. A relação com o arquitecto poderá durar vários meses, pelo que será importante conhecer tanto quanto possÃvel a pessoa com quem irá lidar durante esse tempo e se sinta bem à partida. Há várias perguntas que pode fazer: qual a disponibilidade do atelier para responder nas datas a definir; se tem algum porto folio que ilustre o seu trabalho; se trabalha em equipa e qual seu papel nessa equipa; quais são as linhas orientadoras do seu trabalho; que tipo de acompanhamento é que disponibiliza em cada fase do projecto; e outras que lhe possam ocorrer e ajudem à selecção de um arquitecto.
Em geral há a tendência de subestimar a importância que o Projecto de Arquitectura tem na qualidade final da obra. Por isso, muitas vezes, recorre-se a algum arquitecto amigo, que por acaso até vai fazer um bom desconto; a outro que é conhecido de um conhecido, sem primeiro ter visto que tipo de obras é que faz; à quele que apresenta um preço bom independentemente do serviço que vai prestar; enfim, ao Projecto é dada uma atenção menor no elemento mais básico de todo o processo e que irá ser determinante para o conforto e qualidade de vida de quem vai habitar. Não deixa de ser contudo curioso, quando, fazendo o paralelo entre a construção de uma casa e a aquisição de um automóvel, a atenção e tempo dispendido na ida aos stands e consulta de revistas da especialidade e a desatenção com que se encara a elaboração do Projecto de uma obra que irá custar cerca de 10 vezes mais que o automóvel. Nos empreendimentos de maior escala, mesmo alguns promotores com alguma experiência, não têm consciência, ou subestimam, as mais valias que um Projecto rigoroso, à medida dos seus objectivos de mercado, bem coordenado com as diversas especialidades e bem definido ao nÃvel da fase de execução, se podem traduzir num bom sucesso comercial, com economia de custos e prazos bem controlados. Infelizmente, vemos também o papel de um Projecto de Arquitectura feito com rigor, menosprezado pela administração pública quando recorre sistematicamente a concursos de concepção/construção, remetendo o factor de qualidade do Projecto, não só estética mas construtiva, funcional e económica, para um plano secundário, pesando muito mais o preço final. Aos poucos vemos este panorama mudar, mas entretanto continuamos a construir um património onde a arquitectura continua em geral com um papel secundário.
Funchal, 16 de Dezembro 2004
LuÃs Vilhena
