Para Além das Nuvens

Artigos de Opinião

“Para além das nuvens”, o último filme de Michelangelo Antonioni, 1996, (com a colaboração Wim Wenders), contém uma cena passada num café de Paris, em que uma jovem que lia uma revista sente necessidade de partilhar uma história que tinha acabado de ler, com um homem sentado numa mesa ao lado. A história é a seguinte:

“Passa-se no México, onde um grupo de cientistas tinha contratado uns carregadores por quererem ir a uma cidade Inca no cume de uma montanha. Iniciada a caminhada, passado um bom bocado, de repente, os carregadores imobilizaram-se, não querendo continuar. Os cientistas, sem saber o que fazer para os convencer a retomar o caminho, nem sequer percebiam a razão de uma paragem tão longa. Passadas umas horas, os carregadores, da mesma forma com que tinham parado a sua marcha, puseram-se a caminho e o líder deles resolveu-se por fim dar uma explicação. Disse ele que até ali, tinham andado demasiado depressa e que tinham precisado de esperar pelas suas almas.

Os mitos dos tempos modernos, a ideia de recuperar rapidamente tempo perdido, a ausência de planos de viagem, tem resultado numa frenética corrida sem rumo certo, ou pelo menos numa caminhada e num desenvolvimento sem alma e sem ideologia. Essa palavra que agora esta na moda, competitividade, cria, na maior parte das vezes, a miragem que o desenvolvimento dos sítios e das regiões, da própria vida, é uma corrida de velocidade. Esta pressa tem levado a que o desenvolvimento do território, se tenha feito de uma forma em que podemos estar a correr o risco de deixar para trás a alma dos sítios e dos lugares. Estaremos então a tempo de parar um pouco e esperar pelas nossas almas? Poderemos ainda escolher outro caminho que, ao contrário do movimento actual, não fundamente o desenvolvimento do território apenas na vontade do poder económico, mas que inclua também os outros dois factores de desenvolvimento sustentável, que se prendem com as questões sociais e de cidadania e com os valores ambientais e ecológicos?

Nas corridas de velocidade vemos atletas musculados, a transpirar esteróides anabolizantes, que chegam à glória em menos de 10 segundos. É uma corrida em que não é preciso pensar muito além do cortar a meta, uma corrida de um só folgo. Já a maratona é uma prova de fundo que, para além de todo o simbolismo e significado que implica – uma corrida de um soldado grego que em 490 a.C. corre de Maratona até Atenas para proclamar uma vitória sobre os Persas – é uma caminhada que depende de uma estratégia, de um forte esforço psicológico e de um desempenho que obriga os atletas a controlarem as batidas do coração e o seu folgo durante mais de 2 horas.

O desenvolvimento do território não pode ser uma corrida de velocidade. No entanto, as metas estabelecidas pelo sistema democrático, têm induzido os governos e as autarquias a esgotar todas as suas forças para alcançar sucessivas metas de 4 anos. No seu esforço, muitas vezes à custa de um doping que mascara as suas reais capacidades, não pensam sequer que, mesmo vencendo, têm outra corrida igual no dia seguinte e que os recursos do território que utilizaram, não se repõem nem recuperam tão facilmente como os esteróides. Esta corrida do desenvolvimento do território, em que todos nós, cidadãos, estamos metidos obrigatoriamente, é uma corrida de fundo em que tem de existir uma estratégia que ultrapasse essa meta dos 4 anos e que nos envolva a todos num compromisso de desenvolvimento de longo prazo. Senão, corremos o risco de perder a corrida e, quem sabe, a alma.

Funchal, 31 de Outubro de 2004

Luís Vilhena

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