O Sol Enganador
Artigos de OpiniãoEste texto é um elogio à Ponta do Sol. Não a esta Ponta do Sol descaracterizada, que hoje se quer mostrar progressista e moderna mas que, no esforço de alcançar a sofisticação, perdeu a graça com que encantava os seus visitantes. É um elogio de saudade. Um elogio à Ponta do Sol que um dia conheci, antes de ter sido tomada pelo “novo riquismo” de uns e o deslumbramento de outros; antes do cimento a invadir de forma inusitada e desqualificada; quando passar aqui era um descanso para a alma, uma celebração da natureza e à forma como o Homem a domesticou.
Dois lombos fazem chegar ao mar a montanha e guardam, entre si, essa pequena baÃa onde nasceu a Ponta do Sol. A escala criada pelas encostas onde se encaixa a Vila, oferece uma paisagem contida que dantes se oferecia aos viajantes, de repente, por um percurso furado nas rochas. A recebe-los tinha um conjunto edificado composto por um casario e armazéns que, sem especial qualidade arquitectónica, tinham o mérito de serem verdadeiros e se encaixarem plenamente na escala que a natureza lhes tinha oferecido. A Nascente, a notável construção que, combinando a engenharia e a sábia forma como os antigos souberam fundir as suas obras com a natureza, resultou no cais de embarque que outrora recebia os barcos de cabotagem. Hoje, sem qualquer funcionalidade, completa a paisagem enriquecendo o sÃtio. As encostas dos lombos, à boa maneira da Madeira, foram enriquecidas pela construção dos poios e dos muros que os suportam e que se mesclam com a rocha. Servindo antigamente para a subsitência do povo, alimentam hoje os olhos dos turistas que nos visitam. A praia de calhau, que hoje já não se consegue vislumbrar, era uma praia tipica da Madeira. O calhau, como elemento natural da ilha, fazia a transição natural entre o mar e a terra.
Estava cá tudo: a paisagem única, num casamento perfeito entre o mar e a ilha; a praia original, completada com elementos artificiais que não só se enquadravam na perfeição como valorizavam o lugar; o espaço urbano que, na escala em que foi construido, se adaptava à natureza, moldando-a, sem a ferir. Estava cá tudo. Era só melhorar, recuperar, renovar. Era só continuar.
E agora? Que desenvolvimento é este que, para além de não respeitar aquilo que a natureza lhe ofereceu, se permite renegar todo um património construido ao longo de anos. Património natural e construido, que tem concorrido para trazer o turismo do qual se tem alimentado esta terra. Alguém perguntou a alguém, se este era o caminho? Era isto que queria o povo da Ponta do Sol? Se assim era, a meu ver, vai-se dar mal. Porque, agora, só vai poder oferecer uma plataforma de betão para receber veraneantes, uma marginal com edificios a fingir antigos à boa maneira da Disneylandia, sem carácter, e um pôr do sol assombrado por toda esta ânsia de fazer qualquer coisa sem se pensar naquilo que se está a fazer. É uma pena.
Funchal, 20 de Julho de 2004
LuÃs Vilhena
