Mobilidade

Artigos de Opinião

Do Movimento Moderno, cujo principal arauto e pensador foi o arquitecto Charles-Édouard Jeanneret, conhecido como Le Corbusier, foi adoptada mais ou menos por todo o mundo ocidentalizado e dito moderno, os princípios da Ville Radieuse (cidade radiosa) que, para além de prever a cidade de edifícios em altura e dispersa, de forma a libertar espaço verde e desenvolvida segundo um zonamento por funções de actividade (habitar, trabalhar e lazer), assentava toda a sua teoria na possibilidade do cidadão se poder transportar de automóvel.

Se grande parte desta teoria não se transpôs para a prática exactamente como se previa, uma das ideias que tem perdurado até aos dias de hoje é o desenvolvimento das cidades e regiões com base no transporte individual. Actualmente, passados quase uns oitenta anos do dealbar dessas teorias, temos consciência que os automóveis e o urbanismo baseado no transporte individual são uns dos principais culpados dos grandes males urbanos. Tendo em conta que nos dias de hoje, uma grande parte dos cidadãos tem acesso à aquisição de um automóvel, que o transporte emprega cerca de ¼ da energia consumida por cada ser humano, que o carro é dos principais poluidores atmosféricos e sonoros, que se continua a planear o território com base no pressuposto que nos podemos movimentar entre distâncias consideráveis em transporte próprio, que não se percebe qualquer esforço na melhoria do sistema de transportes públicos, verificamos que as nossas cidades estão a chegar a um limite de congestionamento que discrimina os peões e desumaniza os espaços urbanos onde o automóvel continua a reinar.

A Madeira é um dos casos paradigmáticos que tem orientado o seu desenvolvimento num sistema de mobilidade que privilegia o transporte individual. Se formos a ver, a maior urbe da Madeira que é o Funchal, mesmo tendo começado a falar num sistema de “Park and Ride” e garantir um sistema de transportes públicos mínimo, tem incentivado a construção de uma série de parqueamentos automóveis no Centro, promovendo cada vez mais o congestionamento do tráfego. O Porto Santo, que se conheceu sem ferrys, perdeu uma das grandes oportunidades de pôr em prática um sistema de transportes públicos para servir os seus visitantes, dando lugar, nos meses de utilização mais intensa, à descaracterização daquela ilha e ao ambiente saudável que era uma das suas características de atracção turística.

Ambos os casos revelam uma falta de planeamento do território e a cedência a politicas fáceis e sem ideias ou ideais. Por melhor que seja o transporte público actual, se não houver uma ideia forte que esteja por trás do sistema de mobilidade de qualquer cidade, é impossível controlar o aumento de circulação automóvel, com as consequências que a todos parecem previsíveis. É urgente que se faça um rigoroso estudo de mobilidade, e se caminhe para soluções que apontem para a valorização do transporte colectivo de qualidade, se possível alimentado por energias renováveis e não poluentes, evitando cada vez mais o automóvel, como transporte individual. Seria também interessante que, à semelhança do que já se tem vindo a fazer no Funchal se privilegiassem as ruas pedonais, requalificando e revitalizando os centros urbanos de forma a ser atractivo a utilização dos espaços públicos e, ao mesmo tempo, evitar a construção de áreas dormitório, mono-funcionais, que exigem a dispersão de infra-estruturas, como os transportes. Tudo isto só será possível com planeamento cuidado e com a vontade de fazer cidade. O futuro e o progresso pertencem ao transporte colectivo.

Funchal, 15 de Abril de 2004

Luís Vilhena

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