Jardins

Artigos de Opinião

Jardins como o da Quinta Magnólia, conseguem facilmente deslumbrar os passeantes com as suas magníficas árvores e as suas espécies exóticas. A Quinta do Palheiro Ferreiro oferece-nos, para além da exuberante vegetação, a perspectiva de um desenho de jardins antigos consolidado ao longo de gerações. Um passeio ao Caldeirão Verde leva-nos numa espécie de viagem no tempo à paisagem original da Madeira.

A natureza encanta porque nos sentimos mais próximos das nossas raízes. Toca-nos ainda mais quando vivemos rodeados de betão e ali encontramos sempre a sabedoria da Terra e muitas vezes o conhecimento sobre nós mesmos.

Assistindo a uma replantação num destes locais, em que se colocavam jovens árvores, com menos de um metro de altura, comentava com o homem que as plantava o tempo que esta nova geração de árvores demoraria a crescer para atingir o porte das outras que, a poucos metros, presenteavam com a sua sombra um grupo de pessoas e faziam um belíssimo enquadramento da vista sobre o mar. “Não muito…. Talvez uns 50 anos….”. A tranquilidade com que aquelas palavras saíram de um homem de 60 anos, provavam a consciência de alguém que sabe não viver o suficiente para gozar o esplendor daquele novo jardim já “adulto“, mas também o prazer de estar a plantar alguma coisa que só duas ou três gerações mais tarde irão usufruir da sua sombra e admirar em toda a sua plenitude. Sabe também que não há outro remédio, que as árvores se devem plantar jovens para poderem crescer sãs e proporcionadas, acostumando-nos à sua presença ano após ano. Uma ideia contrariada por um certo espírito ”nouveau riche”, que equipa alguns dos novos jardins com árvores de viveiro, adultas, já feitas e com história, se possível bastante exóticas, onde tem presença indispensável um bela fila de palmeiras. Trata-se de um espécie de “fast-food” da natureza, muito do apetite também dos hotéis estilo “Playmobil”, que não têm história nem farão História, muito ao gosto dos que gostam de exibir e que raramente usufruem do seu jardim. Pois é infinitamente mais elegante e harmonioso um simpático jardim plantado jovem, ainda que menos exuberante, mas que vai crescendo em harmonia com o sítio e vai dando conta do tempo.

Estas lições da natureza deviam-nos ensinar que também é assim com as cidades. Que como as árvores que tortas nascem jamais se endireitam; Que se a alameda da Quinta do Palheiro não tivesse sido planeada antes de ser plantada, hoje teríamos uma amalgama de árvores, que até podendo ter um valor individual, nunca nos dariam a elegância e harmonia do seu conjunto; Que temos de plantar hoje para as futuras gerações poderem usufruir mais tarde.

Construir a paisagem. Foi isso que os antigos fizeram e ainda hoje usufruímos da sabedoria com que o fizeram. Inclusive, colhemos os seus frutos: a paisagem da Madeira ainda se vende. Ainda dá gosto contempla-la, ainda dá gosto vivê-la, ainda há sítios que podemos receber os de fora com orgulho. Era desejável que, com as devidas diferenças, pudéssemos estar a construir uma paisagem à semelhança do que as Levadas significam: um elemento construído outrora para ultrapassar problemas funcionais mas que hoje nos oferecem uma beleza única, sem ferir a paisagem e sem deixar de cumprir a sua função primordial.

É preciso continuar a construir a paisagem de uma forma qualificada, sem as pressas de um novo-rico mas com o saber de um jardineiro que sabe que os melhores projectos não são aqueles que temos a garantia de desfrutar em vida, mas aqueles que deixamos aos outros para viver.

Funchal, 19 de Março de 2004

Luís Vilhena

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