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Artigos de Opinião

O Movimento Moderno, no principio do século passado, terá proclamado um corte com a História e a Tradição. Novas realidades, como o progresso cientifico, a industrialização, uma nova consciência social, a revolução dos transportes, propiciaram o chamado ‘’Esprit Noveau'’. Este espírito, percursor da Globalização, alterou consciências, modificou o território, mudou o modo de vida do homem do mundo ocidentalizado. Mais tarde, nos anos 60, 70, a consciência de que este “Estilo Internacional” e a sua atitude em relação ao território, estava a destruir a identidade e o carácter dos sítios, provocou reacções e criaram-se anti-corpos. Ora, embora esta reacção tenha gerado ideias que trouxeram mais valias e travaram o desrespeito pelo património histórico e a desvalorização do carácter dos sítios, fez também com que nascesse uma geração de fundamentalistas historicistas e pior ainda, uma série de cidadãos conservadores e nostálgicos, amantes do ‘antigo’. Esta ‘doença’, provocada por algumas aberrações arquitectónicas dos anos 70 (cópias mal feitas dos exemplos modernistas), degenerou no gosto absoluto pela forma de estilo clássico e tradicional.

A atitude rétro que então se começou a instalar, é uma necessidade de revisitar ou inventar um passado que, no final de contas, acaba por ser impossível no presente, degenerando numa farsa raramente bem conseguida. O resultado, é por isso, quase sempre, um conjunto de fachadas “à antiga” com um conteúdo não condizente. Um ‘pastiche’. Caricaturas, chegam a ser alguns desses exemplos, que em muitos casos roçam o mundo da fantasia da Disneyland, com a casinha a fingir de palacete, os arcos e as colunas a imitar de longe as ordens clássicas ou então a “casa madeirense” num ensaio de copiar o passado com ilusão de se estar a manter uma tradição.

A maior parte dos PDM’s da região, aprovados ou em discussão publica, contém alguns artigos que apontam para o uso de uma determinada linguagem arquitectonica indentificável na casa tradicional, com o uso da telha, paramentos com côres tradicionais, etc. Ora, embora estes artigos não sejam vinculativos, denotam um certo despotismo estético, não aceitável, qualquer que seja a sua orientação. Tanto mais que, a manutenção dos valores culturais e o carácter dos sítios, não está directamente ligada ao uso de um determinado tipo de linguagem, havendo outros valores muito mais significativos, embora mais subtis, que são importantes para uma boa integração na paisagem ou na cidade, num respeito pelo património edificado ou natural. E, se formos ver com atenção, a grande parte da construção que “polui” a nossa paisagem é de arquitectura feita por não arquitectos e com construções que tentam copiar o modelo da casinha tradicional que agora querem impôr.

Seria por isso importante rever estas directivas que em nada contribuem para uma qualificação do território da Região, correndo o risco de estar a legar às gerações vindouras um património sem carácter. É que, caso não se lembrem, o Património de amanhã é aquilo que construimos hoje.

Funchal, 22 de Julho de 2003

Luís Vilhena

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