Património

Artigos de Opinião

A memória de um povo, de uma cultura, de uma cidade, está escrita na pedra que faz o edifício, no desenho de um lugar, na paisagem que nos envolve. A Arquitectura é dos elementos patrimoniais que mais bem expressa a História de um povo, um espelho dos seus momentos de grandeza e prosperidade, de incertezas ou de decadência. É pois imprescindível preservar esses elementos de uma memória colectiva, que nos enriquece o presente e nos ajuda a delinear o futuro. Por outro lado, a cidade, como também a paisagem, são estruturas dinâmicas que se desenvolvem ao longo dos tempos pela mão do Homem, adaptando-se a novas formas de viver, novas ideologias, novas correntes estéticas ou progresso científico-tecnológico. Neste sentido, a preservação e recuperação do Património Arquitectónico não deve ser estática e conservadora. No caso particular da arquitectura, não deve, nem pode, ser museológica e alienada da forma como serve as pessoas. A arquitectura existe como expressão estética e cultural de um povo, mas também, e essencialmente, para albergar o Homem, quer seja no habitar, no lazer, no trabalho ou noutros momentos da sua vida. Deve por isso adaptar-se, ao longo da sua vida, de forma a melhor servi-lo. Se o que existe não serve de alguma forma o seu fim, chegou ao seu tempo útil de vida ou se encontra desenquadrado urbanisticamente do que o rodeia, poderá ser substituído por uma nova peça de arquitectura, como aliás sempre se fez ao longo da História.

Porém, existem elementos ou conjuntos que, pela sua qualidade arquitectónica, pelo que representam na História de uma cidade ou na memória do seu cidadão, se justifique que sejam preservados até ao seu limite máximo, admitindo até, em alguns casos, que deixem de exercer a sua função como objectos arquitectónicos para passar a elementos puramente museológicos.

A par destas considerações, vive-se uma época em que se tornou obsessiva a recuperação e conservação de tudo o que é antigo. Muitas vezes de forma pouco correcta, mas sempre de forma a idolatrar tudo o que foi construído por nossos antepassados mesmo que sem qualidade. Ainda como rescaldo de uma época modernista em que, pelo contrário, o património construído até então era para abater e dar lugar a um novo estilo de vida e de cidade, hoje dá-se uma ênfase, na minha opinião exagerada, àquilo que está definido como património a conservar. Talvez por uma leitura demasiado imediatista dos documentos que norteiam as políticas de conservação do Património, talvez porque as próprias instituições que se ocupam do assunto se tornaram demasiado fundamentalistas na sua prática.

Há pois determinados princípios que devem regrar a intervenção na cidade ou na paisagem rural, que por um lado deve respeitar o Património e por outro não deve contribuir para a sua mumificação.

A introdução de arquitectura contemporânea em conjuntos urbanos desenvolvidos em épocas anteriores é possível, como aliás está provado ao longo da História. Ou seja, o convívio entre os edifícios contemporâneos e os antigos é possível numa atitude de respeito e discrição, conseguindo-se à custa da utilização da mesma escala, ritmos, massa e conservação do tamanho do lote, mas usando materiais e técnicas actuais utilizando-os numa linguagem deliberadamente moderna e nunca recorrendo a pastiches, imitações e reconstituições falsas.

Por fim há uma ideia que deve estar sempre patente em qualquer intervenção que se faça. Quer interfira com o Património Histórico quer aconteça numa área completamente nova, aquilo que fazemos hoje será o património de amanhã. Por isso, se queremos legar a outras gerações um património que seja acarinhado, como hoje fazemos com o que nos deixaram outros, teremos que o fazer com qualidade, respeito e bom senso.

Funchal, 18 de Novembro de 2003

Luís Vilhena

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