Praias de faz-de-conta

Artigos de Opinião

Porque é que faz sentido montar praias de areia junto ao Sena, em Paris, e é completamente despropositado despejar umas toneladas de areia branca nas costas da Madeira para construir praias artificiais?

A Madeira insiste num erro desde os anos 70, que consiste em copiar ou adaptar modelos de turismo e infraestruturas, de sítios que nada têm a ver com as caracteristicas e potênciais desta ilha. Quem visita a Madeira, e sabe ao que vem, nunca procurará aqui as imensas praias de Canárias, as paradisiacas ilhotas das Maldivas, os safáris do Quénia, ou a oferta cultural da peninsula Itálica, por exemplo. Aqui virá procurar o deslumbramento que a natureza oferece, a imensidão do Oceano, o sol, a temperatura amena, esperando encontrar, cada vez mais, a autênticidade e a originalidade que cada sítio pode oferecer por assumir a sua diferença numa época de globalização.

A costa na Madeira, em vez de se espraiar em longos areais é feita de escarpas que, de vez em quando, nos guardam alguma fajã ou praia de calhau. As praias de calhau poderão ser incómodas e desaconselhar algum passeio ao longo da costa como será possivel na Playa del Ingles ou no areal do Porto Santo. Mas nós estamos na Ilha da Madeira e não servirá de nada remendá-la ou fazer-lhe qualquer tratamento de cosmética, para se parecer com os catálogos turisticos de outras paragens. A força da natureza e a personalidade desta paisagem farão parecer sempre ridiculas as intervenções de faz-de-conta, a copiar os cartazes turisticos com palmeiras e outros artefactos do imaginário do turista ocidental.

Por outro lado algumas das intervenções que se têm feito, ou estão para fazer, ao longo da costa da Madeira, têm vindo a descaracterizar, ou irão alterar alguns sítios de forma irreversivel. Nestes casos não se trata duma coisa tão efémera quanto o fazer uma praia artificial mas sim o de construir uma série de infraestruturas de lazer ou de protecção maritima com uma presença bem visivel. Não se põe em causa a utilidade e o bem que isso trás às populações locais, tanto mais que algumas desta obras servem para ultrapassar a incomodidade dos acessos ao mar numa terra de praias sem areia e servem também o turismo que não se contenta em ficar estático na sua piscina de hotel. Mas é preocupante a forma mais ou menos apressada com que esta obras são feitas, sem o cuidado e saber com que esta paisagem merece ser tratada. Parece ser nossa fatalidade seguirmos politicas de intervenção no território, que noutros países europeus já se provaram ser prejudiciais para um desenvolvimento sustentável e entraram em desuso há mais de 30 anos.

O progresso, hoje em dia, é respeitar o território, assumir a sua contemporâneidade sem perder de vista a tradição, é valorizar o carácter dos sítios e potenciar os seus valores singulares. Criar uma praia à beira do Sena é um acontecimento passageiro, um episódio exótico numa das cidades mais urbanas do mundo. Fazer praias artificiais na costa madeirense é renegar o carácter próprio de uma paisagem natural única, sem nunca igualar os sítios que se tentam copiar.

Funchal, 9 de Agosto de 2003

Luís Vilhena

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