Património Arquitectónico Histórico – Do passado para o futuro

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A Conservação e Restauro do Património Arquitectónico Histórico, tem sido um dos motes principais das actividades paralelas, que acompanham a Festa de inauguração do novo Aeroporto da Madeira.
O tema do Património, que há meio século era apanágio apenas de grupos de intelectuais e profissionais do ramo, tem na actualidade lugar em quase todos os programas políticos dos Governos e Autarquias. Tal como a luta pelo Desenvolvimento Sustentável e Preservação do Meio Ambiente, a Conservação do Património Histórico, ainda que muitas vezes não passe de intenções e a prática não corresponda, tem já presença na consciência política dos governantes, e é sem dúvida um grande passo para que a mensagem espiritual do passado formalizada nos monumentos arquitectónicos, conjuntos urbanos ou rurais, faça parte de uma memória colectiva que nos enriquece o presente e nos ajuda a delinear o futuro.

Embora a noção de Património esteja a maior parte das vezes ligada a edifícações monumentais, como as igrejas, palácios e outras de carácter erudito, convém não esquecer que a estes também se juntam pequenos aglomerados rurais ou parcelas de sítios urbanos que pelo seu testemunho de uma época ou civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico, constituem um legado de gerações anteriores, que pela sua qualidade e exemplo, se lhes reconhece o direito da sua salvaguarda.
A Carta de Veneza de 1964 adoptada pelo ICOMOS (International Council on Monuments and Sites-www.icomos.org) no ano seguinte, define uma série de normas e procedimentos correctos quanto à Conservação e Restauro do Património, nomeadamente do património arquitectónico.
Agora que já se conquistou a ideia, de que existe um Património a defender e preservar, o passo seguinte será o da qualidade. A qualidade aplicada nos trabalhos de restauro e conservação, norteada por príncipios cientificos e consensualizados por grupos de profissionais. Isto, para não dar azo a operações inconsequentes que, em vez de qualificar, descaracterizam ou encobrem os valores estéticos e históricos do monumento ou sítio. Os restauros não se devem basear em hipóteses nem devem formalizar-se em reconstituições conjecturais, sob pena de construir mentiras e não legados históricos. O Restauro deverá por isso ser precedido e acompanhado de um estudo arqueológico e histórico do objecto de intervenção e todo o trabalho complementar, reconhecidamente indespensável por razões estéticas ou técnicas, deverá comportar uma marca do nosso tempo.

O facto de querermos hoje, preservar um determinado Património que nos foi legado pelos antepassados, quer também dizer que houve, em determinado momento histórico, alguém que planeou, projectou e construiu com uma qualidade que nos é cara e que nos sentimos enriquecidos com ela. No entanto a importância que agora se começa a dar ao Património pode cair, em alguns momentos, numa obcessão pelo passado que nos leva a esquecer aquilo que temos que fazer no presente: construir com qualidade, fazer cidade com qualidade, de uma forma planeada e em cumplicidade com os seus cidadãos. Agora e daqui para a frente, há que traçar rumos e deixar a navegação à vista, há que que ter a consciência de que, as gerações vindouras nos agradecerão, como nós hoje nos contentamos, por edificarmos cidades ou monumentos que amanhã constituirão um Património qualificado que enriquecerá o quotidiano dos nossos descendentes.
Há cem anos atrás, provávelmente ninguém pensaria que, ao construir essa obra monumental que são as Levadas da Madeira, estas iriam um dia ser propostas para constituirem Património Mundial.
Ter consciência que aquilo que fazemos hoje, não será apenas para nosso usufruto será outro grande passo. A obra do aeroporto e de todas as recentes infraestruturas serão um legado de qualidade que hoje iremos disfrutar mas que também será utilizado e apreciado daqui a cem anos ou mais.
Mas como nem só de monumentos ou grandes obras é construido o nosso Património, não deveremos perder de vista a qualificação da nossa paisagem, dos núcleos urbanos e até das pequenas coisas que fazem parte dos espaços ou paisagem que habitamos. Qualidade poderá ser a palavra de ordem, mas desenvolvida por técnicos qualificados, adequados às solicitações que lhes são postas.
Aos arquitectos todos estes temas lhes são particularmente caros e como classe profissional estaremos preparados para responder a essa anunciada revolução que é a do Desenvolvimento Sustentável; da Qualificação ou Requalificação dos centros urbanos, neste novo século que provávelmente, não será já o dos países, se calhar tão pouco o das regiões mas sim o das cidades.

Funchal, 11 de Setembro de 2000

Luís Vilhena

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